terça-feira, 29 de setembro de 2009

Violência, crime e logos -
a falácia desnudada (I)
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A única chance do conhecimento é o choque que o não-conhecido provoca no instante em que exsurge. Mas o reconhecimento é a neutralização desse choque.
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

- Encontrou ele?
- Sim.
- E aí, o que ele disse?
- Tudo.
- E o que tu entendeu?
...ih, deu merda. (em voz baixa)
- A hipótese segundo a qual um texto sobre tautologia é inelutavelmente tautológico, confirma a suposição, isto é, a hipótese mesma, de que a ideia de hipótese é já corrupção da teoria.
- Viste que um país europeu mandou lixo pra nossa cidade?
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sábado, 12 de setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

“Raskólnikov teve um sonho medonho. Sonhou com sua infância, ainda na cidadezinha natal. Está com uns sete anos e passeia nos arredores da cidade com o pai no entardecer de um dia de festa. O tempo está acinzentado, o dia sufocante, o lugar é exatamente o mesmo que permaneceu intacto na sua memória: inclusive estava bem mais apagado em sua memória do que se lhe apresentava agora em sonho. A cidadezinha aparece descoberta, como na palma da mão, nenhum salgueiro ao redor; em um ponto, lá muito longe, bem no extremo do céu, negreja um bosque. A alguns passos da última horta da cidade há uma taberna, taberna grande, que sempre produzira nele a mais desagradável das impressões e até medo quando ele passava ao lado passeando com o pai. Ali havia sempre um bando, e como berravam sempre, gargalhavam, xingavam, que incidência e que vozes roufenhas quando cantavam, e com que freqüência brigavam; em volta da taberna sempre circulavam umas carrancas bêbadas e sinistras... Ao deparar com elas, ele se apertava fortemente ao pai e tremia. Ao lado da taberna passa uma estrada vicinal, sempre coberta de poeira, e em poeira negra. Ela continua, serpenteando, e adiante, a uns trezentos passos, contorna pela direita o cemitério da cidade. Dentro do cemitério há uma igreja de pedra com uma cúpula verde, onde uma ou duas vezes por ano ele assistia com o pai e a mãe à missa pela alma da sua avó, morta há muito tempo e que ele nunca chegara a ver. Nessas ocasiões eles sempre levavam consigo o kutyá em um prato branco enrolado em um guardanapo, e o kutyá era de açúcar, arroz e passas, amassadas no arroz em forma de cruz.Ela gostava daquela igreja e dos ícones antigos que ali havia, a maioria sem guarnição, e do velho padre com a cabeça trêmula. Ao lado do túmulo da avó, coberto por uma lápide, ficava o pequeno túmulo do irmão dele, que morrera aos seis meses, que ele também desconhecia completamente e de quem nem podia se lembrar; mas lhe diziam que ele havia tido um irmão pequeno, e sempre que ele visitava o cemitério benzia-se de forma religiosa e respeitosa sobre o túmulo, fazia-lhe reverência e o beijava. E eis o seu sonho: está indo com o pai pela estrada que leva ao cemitério e passam ao lado da taberna. Ele segura a mão do pai e olha apavorado para a taberna. Uma circunstancia especial lhe chama a atenção: desta feita é como se ali houvesse uma festa, com um bando de pequeno-burgueses empetecados, camponesas com seus maridos, e toda uma gentalha misturada. Todos estão bêbados, cantando, e ao lado do terraço da taberna há uma telega, mas uma telega estranha. É uma daquelas telegas grandes às quais se atrelam grandes cavalos de carroça e em que se transportam mercadorias e barris de vinho. Ele sempre gostou de ficar olhando para esses enormes cavalos de carroça, de crinas longas, patas grossas, que caminham com tranqüilidade, a passos cadenciados, e arrastam uma verdadeira montanha sem um mínimo de esforço, como se fosse mais fácil andar puxando cargas que sem elas. Mas agora, coisa estranha, na telega grande há uma pangaré camponesa baia, pequena, em pele e osso, daquelas que ele via freqüentemente e vez por outra se arrebentavam com alguma carga alta de lenha ou feno, principalmente se a carga encalhava na lama ou numa trilha deixada por rodas de carroça, e aí os mujiques sempre as chicoteavam de modo tão dolorido, tão dolorido, ás vezes em pleno focinho e nos olhos, que ele ficava com tanta pena, tanta pena de assistir àquilo que por pouco na chorava, e a mão sempre o retirava na janela. Mas súbito se ouve uma barulheira muito grande: camponeses grandalhões saem da taberna gritando, cantando, de balalaicas em punho e bêbados de cara cheia, em camisas azuis e vermelhas sob armiaks. “Senta, senta todos! – grita um deles, ainda jovem, pescoço grosso e rosto carnudo, vermelho feito cenoura – levo todo mundo, senta!” Mas o mesmo instante ouvem-se risadas e exclamações:
- Essa pangaré aí na agüenta!
- Ora, Mikolka, tu ta bem da cuca? Atrelar essa egüinha à carroça!
- E essa baia já tem sem falta uns vinte anos, maninhos!
- Senta, levo todo mundo! – torna a gritar Mikolka, pulando antes dos outros em ima da telega, pegando as rédeas e pondo-se de corpo inteiro na parte dianteira. – O baio foi embora há muito tempo com Matviêi – grita ele da telega -, mas essa egüinha, meus irmãozinhos, é o meu tormento: é mais fácil eu mata-la que deixar comer de graça. To mandando: senta! Vai sair galopando!! Vai sair galopando! – E ele pega o chicote, preparando-se deliciado para açoitar a baia.
- Vamos, senta ,que estão esperando? – gargalham na turba. – Ouviram, vai sair galopando!
- Faz pelo menos uns dez anos que ela não galopa.
- Vai galopar!
- Não tenham pena, irmãos, pegue cada um o seu chicote, se preparem!
- E mãos à obra! Açoitem!
Todos sobem na telega de Mikolka às gargalhadas e aos gracejos. Sobem uns seis homens, e ainda caba mais. Levam uma camponesa, gorda e rosada. Ela veste roupa de tecido de algodão de um vermelho vivo, usa kitchka com miçangas, tem nos pés calçados de inverno, quebra umas nozes e ri. Na turba ao redor também riem, aliás, como não rir: essa egüinha em pele e osso vai puxar a galope esse peso todo! Dois rapazes da telega pegam imediatamente seus chicotes a fim de ajudar Mikolka. Ouve-se um “toma!”, a pangaré arranca com todas as forças, mas além de não galopar mal chaga a dar um passo, apenas dá um trote miúdo, geme e coxeia à força dos galopes de três chicotes que choviam sobre ela. As risadas duplicam na telega e na turba, mas Mikolka está zangado e, tomado de fúria, fustiga a egüinha com golpes acelerados, supondo realmente e de fato que ela começará a galopar.
- Deixem eu subir também, irmãos! – grita da turba um rapaz empanturrado de petiscos.
- Suba! Suba todos! – grita Mikolka – Ela leva todos. Vou matar de chicotada. – E açoita, açoita. E já não sabe mais com que bater de tanta fúria.
- Paizinho, paizinho – grita ele ao pai - , paizinho, o que é que eles estão fazendo? Paizinho, estão espancando a pobre égua!
- Vamos embora, vamos embora! – diz o pai. – Estão bêbados, fazendo travessuras, imbecis: vamos, não olhe! – e tenta leva-lo dali mas ele se livra das mãos dele e, fora de si corre para egüinha. Mas a pobre da egüinha está em maus lençóis. Arqueja, pára, torna a arrancar, por pouco não cai.
- Açoitem até matar! – grita Mikolka – Já que se começou. Vou açoitar até matar!
- Você parece que não tem coração, seu capeta! – grita um velho do meio da turba.
- Onde já se viu uma egüinha como essa puxar uma carga desse tamanho! – acrescenta outro.
- Vai matar o bicho – grita um terceiro.
- Não se metam” É um bem meu! Faço o que quiser. Senta mais gente! Senta todos! Quero que ela saia de todo jeito galopando!...
De repente uma explosão de gargalhadas abafa tudo: a egüinha não suporta os golpes acelerados e sem forças começa a dar coices. Nem o velho se conteve e sorriu. Realmente: um egüinha em pele e osso e ainda dando coices!
Dois rapazes da turba pegam um chicote cada um e correm para a egüinha a fim de chicoteá-la pelos lados. Cada um corre do seu lado.
- Açoitem o focinho, nos olhos, nos olhos! – grita Mikolka.
- Música, irmãos! – grita alguém da telega, e todos na telega o secundam. Ou ve-se uma cantiga de festança, tocam um pandeiro, assobiam nos refrãos. A camponesa quebra nozes e ri.
...Ele corre ao lado da égua, corre para frente, vê como a estão chicoteando nos olhos, em plenos olhos! Ele chora. Sente um aperto no coração, as lagrimas escorrem. Um dos açoitadores o atinge no rosto: ele não sente, ele torce os braços, grita, lança-se para o velho de cabelo e barba encanecidos, que balança a cabeça e censura tudo isso. Uma mulher o pega pela mão e quer tirá-lo dali; mas ele se livra e torna a correr para a egüinha. Esta já está em suas últimas forças, mas ainda volta a dar coices.
- Que vá pro diabo que te carregue! – exclama Mikolka em fúria. Ele larga o chicote, abaixa-se tira do fundo da telega o varal, segura-o pela ponta com as duas mãos e num esforço o levanta sobre a baia.
- Vai arrebenta-la! – gritam ao redor.
- Vai matá-la!
- É um bem meu! – grita Mikolka e o desce com toda a força. Ouve-se um golpe pesado.
- Açoita, açoita! Por que pararam? – gritam vozes da turba.
Enquanto isso MIkolka torna a levantar num ímpeto o varal e um golpe cai com toda a força nas costas da infeliz pangaré. Ela arreia todo o traseiro no chão, mas salta a arranca,arranca com todas as últimas forças para lados diferentes querendo sair; mas é recebida de todos os lados por seis chicotes, e o varal torna a subir e cair pela terceira vez, depois pela quarta, cadenciado, com toda força. Mikolka está tomado de fúria porque não consegue mata-la de um só golpe.
- É resistente! – gritam ao redor.
- Agora mesmo vai cair sem falta, irmãos, agora vai ser o fim dela! – grita do meio da turba um aficcionado.
- Machado nela, o que é que estão esperando! Acabem com ela de uma vez – grita um terceiro.
- Ei, parecem mosquitos! Vamos abrindo passagem! – Mikolka grita tomada de fúria, larga o varal, torna a inclinar-se para a telega e tira de lá uma alavanca de ferro. – Cuidado” – grita ele e com toda a força que tem atinge num ímpeto a sua egüinha. Desaba um golpe; a egüinha cambaleia, arreia, quer arrancar, mas a alavanca torna a cair com toda a força no seu lombo, e ele cai no chão como se tivessem cortado todas as quatro patas.
- Acaba de matar! – grita Mikolka e salta da telega como se estivesse fora de si. Alguns rapazes, também vermelhos e bêbados, pegam o que aparece – chicotes, paus, o varal, e correm pra a egüinha que está morrendo. Mikolka se põe de um lado e começa a bater inutilmente com a alavanca no lombo. A pangaré espicha o focinho, suspira pesado de morre.
- Deu cabo nela! – gritam na turba.
- Quem mandou não sair galopando?
- É minha! – grita Mikolka com a alavanca nas mãos e os olhos vermelhos. Está postado, como se lamentasse não ter mais em quem bater.
- Realmente, tu és mesmo um desalmado! – já muitas vozes gritam da turba.
Mas o pobre menino já está fora de si. Com um grito abre caminho entre a turba na direção da baiazinha, abraça-lhe o focinho morto, ensangüentado, e a beija, beija-a nos olhos, nos beiços... Depois dá um salto de repente e tomado de fúria investe de punhozinhos cerrados contra Mikolka. Nesse instante o pai, que há muito já corria atrás dele, agarra-o finalmente e o retira do meio da turba.
- Vamos embora! Vamos! – diz ele – Vamos pra casa!
- Papaizinho! Por que eles... mataram... a pobrezinha da égua... – soluça ele, mas está com a respiração presa e as palavras saem aos gritos do peito confrangido.
- Estão bêbados, estão fazendo travessuras, não é da nossa conta, vamos! – diz o pai. Ele agarra o pai com as mãos, mas o peito está apertando, apartando. Ele quer tomar fôlego, gritar, e acorda.”*
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* DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Tradução: Paulo Bezerra, SP: Editora 34, 4ª edição, 2004, pp. 70/74. Sonho de Raskólnikov com sua infância (a descrição deste sonho foi inspirado por lembranças auto-biográficas – cf. nota 27 desta edição).

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