terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Pra não dizer que não falei de flores...", ou: blá, blá, blá...

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Dizem que quando um louco fala é melhor não discordar. Dizem também que a Justiça não era vendada, e que essa obra só poderia ter sido atribuída a um louco - ora bolas!?, vendar uma deusa?!, e, ainda por cima, uma deusa que usa espada e(ou) balança... Bueno, entre tantas loucuras, surpreendeu-me uma sanidade: a força que uma pequena flor fez para sobreviver sobre as pedras que a sufucavam. Comparável à força que inúmeros críticos empreendem às violências cotidianas que suportavelmente pouco abalam quem não pode enxergá-las. Tão louco quanto não-enxergar-o-visível e enxergar-o-imperceptível, é perceber que as pedras são brancas, assim como a cegueira de Saramago, de cujo livro, aliás, retiro a frase: "Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem". Linda metáfora que poderia ter o vigor de sucumbir a paráfrase: "penso que somos fracos, fracos que resistem, fracos que resistindo não (têm força para) resist(ir)em". Mas não tem! Vigor, Força, Resistência é que sucumbem diante do medo. Não é à toa que Carlos Drummond de Andrade é quem escreve "Em verdade temos medo" e depois é quem desnuda (em poemas diferentas da sempre mesma obra) "as leis não bastam, os lírios não nascem das leis". A ressaca do fim dos ideais da contracultura atinge principalmente os herdeiros que fielmente acreditaram poder brigar e resistir à violência. Sorte a nossa que ainda há tempo para as flores que resistem...
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PS: não deixem de notar a cor lilás da flor... pelo que sei, não poderia ser outra...
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A Flor da Pele, ou: sexualidade e(m) tela (I) - Dalí...

S. Dalí. O Grande Masturbador. 1929
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S. Dalí. O sonho causado pelo vôo de uma abelha em redor de uma romã, um segundo antes de despertar. 1944
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S. Dalí. O mel é mais doce que o sangue. 1941
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S. Dalí. Jovem Virgem Auto-Sodomizada pelos Cornos da sua Própria Castidade. 1954
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S. Dalí. Sem Título. Cena Erótica com Sete Personagens. 1967
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S. Dalí. Dois Adolescentes. 1954
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

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La civilización no és la civilización. La civilización és la barbarie. La civilización és la civilización, bien como la barbarie.
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Frankenstein, escutando música mexicana com os tênis desamarrados.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mudos Tropeços Gritantes, ou: verbos-passados-mais-que-perfeitos...

A impossibilidade de descrever o mundo interior também é a medida da guerra que lhe constitui. Indomável, indescritível, inconsciente dor que insiste em lutar inclusive com a outridade exterior. O ciclo, o circo e o círculo, são viciosos; o sorriso é rompimento. "A Queda" é interessante - o juiz-penitente é um símbolo; tropeçar sempre pode ser o sorriso que se opõe à ela - queda real. Para assinar o tratado de paz e abdicar da guerra contra si mesmo em nome do sorriso é necessário (desejoso) - porque de outra forma seria impossível, assinala Rosenzweig - ter vivido a guerra.
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ACP
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

"Nuncamais" Confunda Tempo e Relógio...

"...Quando numa mesma parede estão pendurados vinte relógios e os observamos de súbito, todos os pêndulos encontram-se numa posição diferente; todos existem e não existem ao mesmo tempo, e o tempo real esvai-se entre eles. Isso pode trazer resultados inquietantes..."
(Robert Musil, Pensão "Nuncamais")
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Encontros e Desencontros...

Entre a areia e o pé que já passou existe uma ligação ausente cuja presença não é irreal.
Entre a Lua e o olhos de quem a vê existe uma admiração sensível cujo tato extrapola a real distância entre eles.
Entre a lagarta e a borboleta que irrompeu daquela, existe uma realidade tamanha cujo tempo é a própria condição de vida e de morte.
Para amantes existe uma sintonia ao mesmo tempo invisível e mais que visível, cuja realidade reflete as tensões mais incisivas entre as areias, as Luas e as borboletas.
ACP
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As Irônicas Alucinações do Conceito...


R. Magritte. A Tentativa Impossível (1927)
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Ora, supondo que conceitos sejam apenas tentativas, o que leva a crer que conceitos sobre conceitos possam dizer alguma coisa de verdadeiro do/ao mundo? Filósofos, Psicólogos, Psicanalistas, Juristas e Médicos, só encontraram sapos na sua busca incessante pela Verdade, afirmou Machado de Assis. Ele não gostava de ironias... Seu parceiro e amigo-não-provado-por-documentos-razoáveis, Friedrich Nietzsche, escreveu, no mesmo sentido, que esses mesmos dogmatas não entendiam nada de mulheres. Outro a quem não agradava ironias... Bueno, há uma comprovação-não-empírica, tampouco cientificamente fundada ou dedutivamente demonstrada que Magritte leu muitas obras de Machado de Assis e pode, por inspiração nietzscheana, pintar a metáfora da alucinação dogmática. O belga também não gostava ironias e, por isso, é uma mulher que tenta reproduzir...
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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pseudo Poeta Fingidor

Há patologias mais profundas que as doenças aparentes; e a pretensão de antecipar-se ao próprio tempo de encontrar a diferença que resiste ao meu olhar é a representação dessa alucinação patológica que dramaticamente deseja negar a vida por abortar o que nela permite construir todos os possíveis sentidos: a temporalidade.
ACP
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

À Flor da Pele, claro...

O Que Será (à flor da pele)
Chico Buraque
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O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
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sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A Desestabilização dos Loucos, ou: sobre medo, diferença e seu desenfeitiçamento...

Ainda eram três horas da tarde e Cachimbo não se considerava atrasado, mesmo que não pudesse conter a ansiedade pela espera do ônibus, principalmente depois da cena que presenciara amargamente. Uma sutileza não lhe deixava sossegar; talvez tenha sido o filme da noite anterior ou mesmo a visita ao circo há dois dias atrás que lhe azucrinavam, ainda, a necessária organização das coisas em quadros-belos. Ora, a identificação entre diferença e erro, ou, mais veementemente, entre medo e ódio irrompiam-lhe os olhos e os nervos. Como não se dar conta? Como fingir que não vê? Lembrou do filme e do livro: talvez mesmo sejamos cegos que vendo, não vêem.
Ao chegar na parada de ônibus já estavam estáticos e nojentos Vômito e Mijo dentre outros esperençosos. Claro, Cachimbo percebeu a tensão imediatamente, até porque seu olfato não lhe permitiria o contrário: realmente a expulsão ativa do conteúdo gástrico, assim como a excreção renal provocavam-lhe certa náusea. Semelhante, talvez, ao que tenha sentido Gravata (que de borboleta não tinha nada) ao ter presenciado as expulsões, em plena via pública, de Entretanto. Este que, em seguida, atravessou a rua, cavou um buraco com as próprias mãos no cantanteiro em frente e agarrou o máximo que pôde de terra em suas mãos, voltando imediatamente para o local "profanado". Como não poderia deixar de ser, o agito foi total: entre fingir-que-não-vê, desprezo e medo, Gravata não se conteve e, a passos firmes, mudou a direção do seu caminho - ora, pouco importava agora se estava atrasada, se tinha compromisso; a sua sanidade lhe roubava o tempo necessário da decisão. Atravessou a rua e abandonou a parada, enquanto Vômito e Mijo, dentre outros, ainda mantiveram-se por ali, já preparados para qualquer necessidade de força maior, com a exculpante, claro, do caso fortuito.
Cachimbo, justificando seu apelido, Louco, notava as bizarras movimentações e olhava atentamente para Entretanto que, aproximando-se, falou qualquer coisa incompreensível e, para desagrado dos demas presentes, não jogou o punhado de terra em ninguém; pelo contrário, despejou-o com enorme serenidade sobre suas excreções, de forma a deixar o local menos nauseante possível. Bom, bateu as palmas da mão tirando o excesso de terra e continuou seu caminho, para desagrado da platéia que deveria resignar-se sem poder exercer seu desejo físico de aniquilação do diferente.
Tal como a bonita imagem do fumante de cachimbo que ao tragar traga a si mesmo, de modo que também é o próprio cachimbo que fuma o fumante - o que se expressa na nuvem espessa de fumaça jogada pra fora pelos pulmões, o medo dos sãos cria realidade, cuja irreal causa não nega a real conseqüência dos efeitos nocivos da redução do diferente à lógica de quem olha. Entre imagem, fumaça e medo, Cachimbo levantou a cabeça. O rosto um pouco amassado chamou a atenção do professor que continuava a explicar as funções e funcionamentos do pulmão e sua importância para o funcionamento de todo o corpo, e não se abalou com mais um relapso daquele aluno que recusava-se a usar sapato branco e frequentemente dormia nas aulas. Para Cachimbo, porém, sua loucura era mais sã do que a sanidade que se auto-atribuiam os homens de branco que insistiam em querer ensinar-lhe a desenfeitiçar o estranho. Ora, talvez justamente por isso ele lembrava agora do seu sonho e de uma leitura profana que realizara há pouco; em relação à isso escreveu: "entre enfeitiçamento e desenfeitiçamento há uma tensão pela qual o são enxerga o louco, reduzindo seu feitiço à lógica imprópria pela qual enxerga/vê; ou, antes, o Outro tem/possui um feitiço, a sua própria outridade e o medo desse feitiço reconhecido impõe a necessidade do seu desenfeitiçamento - a sua redução ao que dele os olhos do lógico/são/normal podem compreender."
Irônico, o professor perguntou o que Cachimbo havia anotado e, especificamente, qual era a função do pulmão. Ele tentou dizer que escrevia sobre pulmões, mas que Gravata, sua colega, poderia certamente responder melhor essa questão. Foi expulso da aula - afinal, era um claro espaço para sãos engravatados.
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Metafórica Angústica do Grito na/da Noite, ou: Drummond encontrando Munch, ou ainda: a angústia encontrando Drummond e Munch...

Passagem da Noite

É noite.
Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos!
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
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Carlos Drummond de Andrade

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"O Grito", Edvard Munch (1893)

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008