domingo, 31 de agosto de 2008

Túneis: ou, nós na garganta...

Tem algo de patológico na angústia. Os médicos, os psicólogos, os juristas, enfim, os industriais da nossa cultura, diriam: “claro, isso já sabemos. Inclusive possuímos as soluções para essa infelicidade!” Soberbamente imputam ao pathos que se lhes consubstancia a angústia o seu logos – como luz no fim do túnel. Quando analisam o medo, por exemplo, não enxergam nele explosão de vida. Não conseguiriam fazê-lo – o medo só pode estar ligado àquilo que a sua lógica consegue(ria) salvar. Pois é, o túnel... é de simples e fácil constatação que há uma saída ao final; qualquer louco que pretenda questionar essa obviedade tão sã, ou tão só, não passaria longe do hospício. Mas... e quando o túnel somos nós? E se o posto de maquinista estiver vazio? E se o algo que está no lugar do maquinista for tão invisível quanto inconcebível? E quando a queda toma direção da crosta terrestre? (Dürrenmatt) Bom, para esses casos existe a inversão: o túnel no fim da luz. Enquanto isso, a angústia continua sendo aquela pretensão de se antecipar temporalmente ao tempo da decisão. Sim, tautológico mesmo(!) E as Chacretes, assim como os industriais, continuam, à Jorge Ben, balançando a pança... Foi mesmo diante disso (mesmo que não-comprovado-empiricamente) que Chico Buarque escreveu: “preciso não dormir/ até se consumar/ o tempo/ da gente...”. Quer dizer, a angústia tem a ver com o peso – mais ou menos como aqueles mil quilos de penas presas num saco transparente; pois é, justamente as penas... elas são como flores, mesmo que mais frágeis, pois desprovidas de espinhos. Sim, o patológico na angústia pode ser a pretensiosa alucinação de livrar os humanos dela.

Para tudo isso conferir: http://tunelnofimdaluz.blogspot.com/
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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Alucinação de Perspectiva...

Tempo / Espaço
Lulu Santos

Olha meu bem o céu
Vê quanta luz, quanta estrela
Quase todas mortas
Só não é chegado para nós o tempo que se apagarão
A gente tá na lanterna, do tempo que virá

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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Maçã Incrustada nas Costas: ou, sobre "A Metamorfose", de Kafka...

Uma outra viagem por Praga, talvez pelos cantos mais escondidos das nossas próprias peles, nos quais a realidade se choca com a sutil temporalidade que corrói: metamorfose.
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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Alucinação do Paradigma da Cura...

Salvador Dalí. "A Metamorfose de Narcíso" (1937).
Essa tela pintada em 1937 foi um presente e uma prova que Dalí deu a Freud, quando do seu primeiro encontro. O pintor queria demonstrar ao psicanalista que era o seu maior discípulo.
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Há algo incidente nas áreas psi que se chama "mecanismos de defesa". Bueno, existem. Provocam efeitos. Não resistem à diferença. Surpreende, porém, que principalmente a psiquiatria não resiste ao contato com a alteridade. Os discursos psiquiátricos esfacelam-se com a diferença; a sua Totalidade/Totalização, o seu discurso violento, é seu próprio contrário: um mecanismo de defesa que só pode existir negando as alteridades, as fatalidades dos fatos e a tragicidade da vida. Não posso defender, assim, outra idéia, senão a de que a própria psi (assim como o ius) sofre de todos os "mecanismos de defesa" que aponta, os quais somente se consubstanciam pelo desejo de normalidade advindo da sua alucinação.
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Cf. :
DALÍ. Ed Taschen.
DALÍ. Coleção Gênios da Arte. Ed. Girassol.
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sábado, 23 de agosto de 2008

Caricatura(s)...

Em 1931 Salvador Dalí pinta "A Persistência da Memória ou Relógios Moles". Segundo o próprio Dalí, "Sempre me perguntam por que os relógios são moles, e eu respondo: 'Um relógio, seja duro ou mole, não tem a menor importância, o que importa é que assinale a hora exata'. Nesse quadro, começa a haver sintomas de chifres de rinoceronte que se destacam, servem de alusão exata à desmaterialização constante desse elemento e se transformam cada vez mais em um elemento místico". Um pouco antes disso, em fins do século XIX, Monet pinta em inúmeras telas num mesmo dia "A Catedral de Rouen", numa série que ficou conhecida como Vistas da Catadral de Rouen. "Assim pintava um pouco de cada uma das 12 ou mais telas em uma mesma sessão, correspondendo cada tela a um novo matiz de tonalidade ou a uma mudança de direção da luz solar ou da disposição da cena". Segundo seus biógrafos, "O problema para Monet era que 'tudo muda, inclusive a pedra', obstinado como estava em vincular conjuntamente o observador, o objeto luz e atmosfera". No mesmo fin dè sècle Guy de Maupassant escreve suas impressões fantásticas do absurdo em vários contos; num deles, chamado "Carta de um Louco", ele demonstra a insuficiência do humano em dar conta da realidade - que escapa, que excede, àquilo que os meros cinco sentidos podem captar. Segundo o tradutor e comentador brasileiro José Thomaz Brum, a dissolução apresentada por Maupassant emerge da liquidez do sólido, que só pode ocorrer com a percepção da temporalidade corrosiva. Bueno, não é à toa que este é o mesmo fim do século que permitiu à Francisco Goya enxergar monstros ao adormecer da Razão - quero dizer, exsurge desse tempo constitutivo e corrosivo a sutil percepção de que o homem é muito mais do que uma máquina pensante. Shakespeare, tragicamente tão elogiado por Nietzsche, teve que assinalar primeiro que "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a vã filosofia", para em seguida poder dizer, mais uma vez pela boca de Hamlet, que "nosso tempo está desnorteado". Ora, a distância entre o visto e o visível, entre o dito e os não-ditos é o contrário, talvez, do que representação pode significar. Claro ao contrário (à Estamira) que René Magritte não pôde se furtar à toda essa sensível questão de olhar. Assim, em 1933 ele pinta "A Chave do Campo" e em 1938 "A Duração Apunhalada", indicando, também, que o real é muito mais espesso do que os olhos são capazes de figurar, e que não há possibilidade da própria figuração enquanto o segundo não passar - de maneira que nada é incólume ao tempo. Nem mesmo o relógio. Inclusive aquele relógio pintado por Dalí não está a salvo. Pois, o tempo não é ele, não está nele senão apesar dele. Da mesma forma as Catedrais do Monet, cujas diferenças não poderiam ser localizadas a não ser temporalmente.

Atentamente Palavra escutava tudo isso de sua filha. Já eram dez horas da noite e quem não queria dormir dessa vez era a mãe. Há tempos Palavra não precisava colocar sua filha para dormir. Aliás, há tempos Caricatura não se deixava dormir acariciada pela sua mãe. Pelo menos desde que Projeto e Projeção, os cachorros da família, foram atacados por uma doença inexplicável, Caricatura abdicou dos caminhos salvacionistas e curandeiros que lhe impunha sua mãe, a Palavra. Agora, porém, o rompimento parecia estar sendo aceito. Parecia que, de alguma forma, Palavra estava a aceitar que não poderia representar o real senão por um olhar um tanto vesgo. Era difícil acreditar, mas a crítica por vezes polêmica de Caricatura entrava por baixo das unhas da sua mãe e penetrava corrosivamente seus olhos. Toda necessidade de aceitar e dar voz à sua filha, consubstanciada num tremendo momento de violência, devido as escolhas díspares que ela fazia - que foi o motivo, inclusive, quase comprovado por lógicos nexos causais, da morte dos cães - pareceu enfraquecido naquele singelo momento de escuta. O que Caricatura estava querendo dizer profundamente para sua mãe era que o que se enxerga de uma pessoa não é ela absolutamente, antes a sua mera caricatura representada. É tudo ao contrário do que a vida inteira ouvira dentro de casa. É o avesso daquilo que enxergava Palavra quando via Caricatura acariciar Projeto e Projeção, antes de morrerem.

Chocada com tudo isso, Caricatura notou que o relógio já marcava três horas da manhã. Sentiu um tremor na cama. Era Irrepresentado, seu irmão. Chegou da festa, subiu no beliche e acordou Caricatura que dormia na cama de baixo. Ela levantou e o relógio marcava realmente três horas. Palavra dormia no seu quarto; não podia ser atrapalhada, pois amanhã continuaria seu intento: já estava na letra "N" do alfabeto e queria acabar seu dicionário até o próximo mês. Pensou: o relógio não é o tempo, apenas sua caricatura. Voltou a dormir; sonhou com monstros.

DALÍ. "A Persistência da Memória ou Relógios Moles"

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MONET. "Catedral de Rouen"
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MONET. "Catedral de Rouen"
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GOYA. "O Sono da Razão Produz Monstros"

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MAGRITTE. "A Chave do Campo"
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MAGRITTE. "A Duração Apunhalada"

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Conferir:

DALÍ. Coleção Gênios da Arte. Ed. Girassol

DALÍ. Ed. Taschen

MONET. Coleção Gênios da Arte. Ed. Grassol

MAGRITTE. Ed. Taschen

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terça-feira, 19 de agosto de 2008

Descentralizando, Descentrando, Descerrando... Incomodando: "A Corda Sensível", 1960


"A psicanálise (...) é apenas uma interpretação entre outras. Ela confere um valor de símbolo às coisas representadas, aos objetos escolhidos pelo artista. Penso que uma nuvem num quadro é apenas uma nuvem. Não creio no inconsciente, nem que o mundo se nos apresente como um sonho, de maneira diferente da do sono..." (R. Magritte)
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Conferir: Magritte, Taschen Editora.
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sábado, 16 de agosto de 2008

Temporalidade...

"...E eis que chega o momento sempre igual e estranho em que a necessidade do segundo que passa triunfa sobre todos os sentimentos poderosos e permanentes do ser..."
Robert Musil, O Papel Mata-Moscas
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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

"Vazio Cheio de Algo..."

Copo Vazio
Composição: Gilberto Gil

É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.
É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.
Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Espiando os Cantos Escuros com os Cantos dos Olhos: Poesia de Carlos Drummond de Andrade...

O medo
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A Antonio Candido
"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."
(Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração)

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Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
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E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadeamos.
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Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
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Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
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Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
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Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
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Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
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Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
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do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
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Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
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E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
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O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
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Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
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Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
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eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
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Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Olhos e Olhares, Forças e Fraquezas: ou, a auto-crítica de Semáforo...

"Quantos olhares há sobre uma pessoa? Cada pessoa tem o seu olhar, sempre vesgo, e constrói a sua realidade a partir do que consegue enxergar dela, sempre cego... Essas diferenças de olhar não podem esquivar-se da relativização, mas também não o podem da realidade máxima, que é a presença do outro olhar." Foi assim que Semáforo iniciou sua escrita. Queria fazer poesia. Acabou escrevendo. Algo. Sensível ao que de realidade poderia perceber no mínimo contato com o que não era ele, só pôde dar-se conta, como ocorre com aqueles restos indizíveis que as palavras nunca alcançam, que sua melhor amiga, a Metáfora, não enxergava as coisas da mesma forma. Claro, ele não poderia ver, tatear, farejar, de maneira diferente, nesse momento; só lhe restava deixar a si mesmo dar-se conta. Perguntava-se: "aliás, o que sobra para além daquilo que eu mesmo consigo construir em relação à esta diferença?" A questão permaneceu... tocada e retocada, dita e redita, não-dita e desdita. Primeiramente, e por muito tempo foi assim, pensou que essa diferença fosse por causa da cor dos olhos - Metáfora os possuía azuis, Semáforo, pretos.
Lembrou que quando era criança imaginava-se, ainda, como seus parentes o faziam crer que ele mesmo era. Parou. "Como pode?", perguntou-se. "Eu mesmo não sei o que sou na diversidade e multiplicidade daquilo que posso ser... Quem é que pode saber quem eu sou verdadeiramente na minha essência?" A cor dos olhos deve indicar alguma coisa. Inclusive, talvez, pode indicar tudo, menos valores. Diante do choque, este narrador, onipresente, violento e, como não poderia deixar de ser, vesgo, elaborava: qual dos contrários será que Semáforo encenava no momento mesmo em que escrevia?
A reflexão lhe deu a chance, e inclusive ao narrador, de simplesmente, pensar que "na real" um jogador de futebol qualquer pode estar jogando por salário apenas, mas pode, por outro lado, estar correndo para o torcedor, para a sua própria gana e não grana; que realmente ele pode estar ali com toda a sua sensibilidade, tal como Semáforo o desejaria. Abismado, ele cogitou, então, que de alguma maneira, seus colegas dos tempos do colégio pensavam algo sobre ele que não dizia respeito ao quê ele era, mesmo que naqueles tempos ele próprio acreditasse que representava o que exigiam dele que representasse. É incisivamente paradoxal. Já não sabia se teria sido aquilo ou se não poderia deixar de ser daquele jeito, naquele tempo. Baseara todo seu comportamento, suas conversas, suas percepções de realidade, na imagem que fazia da imagem que os outros faziam dele. O próprio fato de acreditar, agora, em percepções já indicava uma crítica. Semáforo angustiava-se ao lembrar. Sua auto-crítica era dolorida demais. O recheio dos instantes vividos era preenchido com mel, mesmo que preferisse abacaxi. Espanto, porém! A vergonha por desnudar a sua violência, era, paradoxalmente, jogada para fora com um sorriso. Refletia, gritava e sorria. A Metáfora, contudo, só enxergava o sorriso, visto que pasmado, Semáforo gritava mudo. Poderia sorrir, pois justamente era a sua sensibilidade que possibilitava jogá-lo no tempo e encontrar, também, alguma inexplicável constância, naqueles momentos de crise. Deu-se conta: a chance de sorrir era a chance de encontrar. A sua posição crítica, subversiva, mal-entendida, estava a lhe dizer, por sussurros, que ele realmente poderia ser assim; poderia, sim, aceitar a cultura não obstante seus influxos contra-culturais; poderia aceitar-se, concomitantemente, crítico e filho.
Como se fosse o reverso do estar de ponta cabeça, mas que não é apenas estar de pé, pois não há como ficar incólume ao fato de que há instantes o sangue subira bruscamente às têmporas, Semáforo sentiu que as críticas que freqüêntemente dirigia aos outros da sua racionalidade, não poderiam sobreviver, senão pelo fundamento das quais emergiam. Fundamento que também é seu próprio limite. O também sempre é, e o sempre também é, sempre também, pensou. Coincidência dos opostos, lógica da conjunção, crenças, olhos, azuis e pretos...
Talvez Semáforo quisesse mesmo ser artista como sua mãe queria lhe pintar... Mas isso é uma crença, apenas, do narrador.

sábado, 2 de agosto de 2008

Intocável Distância Sensível...

Entretanto, a delicadeza do partir emerge como um rabisco, cuja alegria indica, na imaginação infantil, o oposto daquilo que árvores, montanhas e pássaros podem significar para a leitura materna. Assim o tempo do choro, a distância alucinada, o amor eternizado...
ACP