quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Umbigo-canário
Recentemente o Emir Sader questionou os brasileiros acerca da posição política e vital que assumiram perante a ditadura militar iniciada em 1964. Uma instigação que tem reflexos assombrosos face às posições que muitos cidadãos assumem contemporaneamente perante a mesma lógica ditatorial. Colocados de frente para as suas televisões sintonizadas harmonicamente com os seus maniqueísmos mais profundos, eles parecem olhar para os seus próprios umbigos, e é evidentemente desastrosa a vinculação a que os súditos, literalmente, se submetem. No Rio de Janeiro as forças militares avançam morros para dentro, morros há tempos desamparados pelo Estado. Matam e orgulham-se disso. Dizem-se guerreiros e por isso guerreiam. Da parte dos súditos, eles querem sempre se colocar ao lado do bom guerreiro; e há ainda os bobos, os quais, para a crença súdita, são apenas parte do cenário, facilmente intercambiáveis por quaisquer canários – os súditos seriam os verdadeiros bobos, não fossem os bobos marcadamente inteligentes. Aliás, a seleção canarinho engana sempre a todos, principalmente os súditos que, sempre à frente Brasil, salve as torturas e os paus-de-arara, gritavam enaltecidos enquanto gritavam esmaecidos todos os que não se deixam bobear por esse amarelo-nojo, amarelo-bile que é entoado ainda hoje pelos exércitos de guerreiros que assassinam as esperanças de que alguma coisa deixe de ser o que sempre foi. Voltando ao questionamento inicial, onde tu estás, caro leitor, de frente ou de umbigo para os ataques genocidas oferecidos em nome da população brasileira contra os eternos “inimigos” da ordem e da segurança nacional?
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
sobre o enem
Mais uma vez o Exame Nacional do Ensino Médio apresentou problemas na sua execução. Sendo uma proposta à educação e sendo proposta pelo governo federal, era de se esperar o descrédito e o ataque dos cidadãos conservadores, a fim de responder à derrota sofrida nas últimas eleições. As empresas de meios de comunicação de massa cumpriram seu papel em defesa da “educação” – o que é literalmente incrível, visto que a suas próprias mediocridades propagadas a todo instante só podem voltar-se contra o que significa educar. Agora, o argumento segundo o qual os vestibulandos perderam tempo estudando para o ENEM, e que este tempo não se recupera – ele é assombroso, porque nenhum tempo estudado é tempo perdido, e tampouco se poderia assim considerá-lo. Este argumento, entretanto, é incansavelmente recuperado em termos históricos; contra isso, o estudo – que é, pois, uma corrida a galope contra a tempestade, como bem escreveu W. Benjamin o propósito do décimo aniversário da morte da F. Kafka. Mas esse legítimo argumento de autoridade foi proferido por um cidadão senador vinculado ao partido conservador numa entrevista à Rádio Senado, transmitida nesta segunda-feira (dia 8/11) pelo jornal A Voz do Brasil – este que é já um ranço do totalitário. O vínculo técnico que o senador e seu partido perfazem para a manutenção da má educação já não consegue, todavia, esconder seu auspício de instrumentalizar o conhecimento, e é por isso que a plataforma do seu ex-canditado à presidência procurava criar um número x de vagas técnicas e mais técnicas – para quantificar o mercado, para neutralizar a crítica, a reflexão mesma. O que expressa também a sucção, cujo proceder é astuto, “vitorioso” – dialogando mais uma vez com W. Benjamin – e tudo isso é erigido em nome da “educação”. Educação? Que assombro levou o senador a acreditar que um projeto institucional à educação poderia estar algum dia pronto, absolutamente planejado? Ora, projeto é outro signo para natimorto, natimorto é já o projeto; e o ainda contemporâneo adjetivo “institucional” é, injustamente, o que neutraliza o verbo, é o que suga o potencial corrosivo do educar. A ferramenta institucional do projeto, a própria ideia vestibular, é ruim. É falsa, não-verdadeira. A lógica vestibular, a infantilidade escolarizada, no entanto, é erigida como substrato democrático – e é, pois, ruim também para os crentes nas instituições democráticas que esse projeto não se tenha concretizado; apesar disso é melhor dizer, afinal de contas, que o Estado é o responsável pela educação do que exercê-la responsavelmente. E por isso a conseqüência, lógica e intestinal, é que o estudo só deve sê-lo enquanto instrumento para algo e não o algo mesmo a criticar os instrumentos: perde-se tempo com o estudo, pois a reflexão mesma é tempo perdido. Mas não parece, caro leitor, que uma seiva está sendo espremida dos músculos frescos? Não parece escorrer um líquido amargo, amarelo e esverdeado, que fatidicamente auxilia e exprime a produção? Então as vozes do conservadorismo ecoam a favor e contra o Estado, para que o estado das coisas possa manter-se plasmado, plastificado, planificado, diante do que urge, o pensamento. Mas, como afirma Benjamin, esse assombro “não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável”. Lembrei daquela imagem do papel mata-moscas proporcionada por R. Musil: a instituição suga a vida do que lhe resiste, e o seu por que, o por que institucional, é uma espécie de substância gelatinosa, amarela e tóxica, cuja função procede à sucção – de vida, de tempo; é a razão mesma da totalidade e a sua não-verdade, a não-verdade do conservadorismo, a sua forma mentis – do que o papel mata-moscas é também expressão.
Assinar:
Postagens (Atom)