quinta-feira, 31 de julho de 2008

Vazio Cheio de Algo: ou, crítica à racionalização alucinatória...

"O Romantismo, como expressão dos medos, e ainda do sombrio e enigmático inconsciente do homem, vislumbrado nas chamadas “pinturas negras” de Goya, constituem o testemunho do profundo ceticismo com que o artista via as promessas de salvação exaradas pela Igreja, e as esperanças de melhores condições de vida lançadas pelo Iluminismo. Talvez não só ceticismo, mas igualmente desespero. O monstro humanóide da obra “Saturno”, que devora freneticamente um cadáver, exprime a sensação de horror e de desamparo pelas promessas descumpridas, e o abandono do homem à própria sorte, inclusive à possibilidade de ser destruído por seu semelhante. Assim, Francisco de Goya pintou não somente o que via ao seu redor, as intimidades do mundo e o que considerava equívoco, mas também, e poder-se-ia dizer principalmente, o que descobria dentro de si."
  • Kunze, Alexandra Biezus. Imagens da desagregação e da violência : insurreições contra a totalidade racionalista. Porto Alegre, 2006. Dissertação (Mestrado) – Mestrado em Ciências Criminais. Fac. de Direito, PUCRS, 2006.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A Implosão da Modernidade: ou, totalidade, festejo e balões murchos no chão...


Assim como na mitologia grega Cronos só pôde aniquilar Urano porque tinha nascido deste e, sendo seu filho, era justamente aquele que poderia destroná-lo, destroçá-lo, o Tempo, surgido da união entre o Céu a e Terra, corroeu as pretensões de subestimar as diferenças, mas apenas logrou êxito porque teve oportunidade de se dar, de irrompoer, nascer. Assim, talvez, Nietzsche, Coringa, a Contemporaneidade...

sábado, 26 de julho de 2008

Alucinação do Sol: ou, o encontro de Januária e Godot...

"Quem madruga sempre encontra/ Januária na janela/ Mesmo o Sol quando desponta/ Logo aponta os lábios dela..." entoa Chico Buarque a fatalidade da espera. Ora, quem "madruga", espera... E, o que espera quem espera? Estragon e Vladimir, esperam Godot: Estragon: "Sou infeliz" - Vladimir: "Não brinque! Faz tempo?" - Estragon: "Tinha esquecido." Bom, "a felicidade é uma coisa boa/ E tão delicada também", disseram, ao seu tempo, Vinícius e Tom... Imputaram também a necessidade do vento, e, assim, da chuva, do Sol, da tempestade, da Lua, do orvalho... Bueno, a felicidade é uma coisa louca e complicada também... Seria ilusório crer que quem espera o inverno também tem a esperança de que, no império do frio, aquela mínima sensação de calor possa lembrar o corpo ardendo da amada? Quanto Sol há entre Argel e Paris... Aliás, quanto de Camus há no meu Sol?? Quanto Sol aquece o quarto de Januária, penetrando pela sua janela aberta - que é a janela aberta do seu coração, cuja porta há tempos está destrancada, também na espera de que entre intenção e gesto, os admiradores lhe firam com palavras sempre metafóricas... É, Godot!?! Estás entregue à máquina de tortura que vai te tatuar esperança e depois te matar, não sem antes deixar que tu mordas um tampão de feltro... pois, claro(!), os gritos não podem atrapalhar os ordeiros que não sabem esperar pela sua vez de sentir o rastelo. O senhor também espera, Godot! Espera, talvez, por Januária, "Que malvada de penteia/ E [só] não escuta quem apela..." Justamente, "quem espera nunca alcança"(!); quem espera, espera... enquanto preenche o vazio com coisas que se dá conta e com outras que não lhe seriam possível enxergar... Não pense que há categorias de espera, a espera é incategorizável, indizível... A espera e sua amante, a esperança, nem sempre viveram um romance tranqüilo. Ora, a proximidade e a comungação de idéias nem sempre é uma boa - estavam aí, nas ilusões mito-lógicas na nossa realidade, para demonstrar isso, Apolo e Dioníso, cuja aparente oposição não lhes permitiu brigarem pelo Sol, que afinal era o próprio Apolo, mas que não poderia ser apenas ele, visto que o Sol é muito mais que um conceito, muito mais do que uma representação... O êxtase, o afã, a loucura dionisíaca também dependem do Sol, dependem de que ele não cesse de existir; espera, por isso, que o tempo não pare. Doudo, perguntou-me o são (vestido de branco), a esperança não é a negação da vida? Pipe, repondi citando, alucinadamente, "uma esperança tremenda faz-se ouvir do nascimento da tragédia" (F. Nietzsche), pois na sombra que caricatura os restos, encontram-se diferença e tempo. Filosofia da tragédia, talvez. Mas só poderá sê-la ante o Sol, pois esperança constitui vida e a temporalidade aceita as diferenças a cada manhã ensolarada, inclusive nublada... Afinal, Merseault, porque mataste o personagem sem nome e conhecido apenas como Árabe? - Por causa do Sol...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Tensão Temporal: exultando a vida com Jayme Paviani...

A Vida

Há uma dor que dói
e fere o universo
e faz parte dos ciclos da natureza.
O que distingue o homem das coisas,
as coisas não nascem nem morrem.
A despedida é dever do homem.
As flores colhidas antes do tempo
para a festa da beleza
têm o sentido trágico da vida.
Não é verdade que tudo passa,
tudo permanece de outro modo.

Jayme Paviani

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Sensibilidade Mayoral: entranhas do tempo, da vida...

Todo o Sentimento
Chico Buarque e C. Bastos

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu

terça-feira, 22 de julho de 2008

Insuportáveis Semáforos Brutos...

Sinaleira fechada. Isso quer dizer que a luz vermelha incendeia os olhos do motorista que, angustiado, espera pelo verde. É mais ou menos com esse cenário que o Primeiro Cego ficou tomado por uma "resplandecente brancura" que não lhe permitiu por um tempo enxergar as cores do mundo (J. Saramago, Ensaio sobre a Cegueira).
Na vida das simplórias pessoas que enxergam, o Sinal Fechado pode ser um lugar de encontro, tal como na música de Paulinho da Viola:
Olá, como vai
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe?
Encontro fugaz do qual emergem trocas de olhares que se sabem sofridos, inseguros. Ora, as cores do mundo ardem nos olhos e doem na carne daqueles que se permitem não dormir, pois, sabem, a dor não passa (Chico Buarque, Bom Conselho). É como os desencontros dos amantes que sentem a delicadeza da felicidade, inconcebível sem a infinitude da tristeza.
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...
Tanto coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa rapidamente
Pra semana...
Em breve, porém, o sinal deve abrir, independentemete daquele que cegou e das buzinas que não deixa de ouvir. A esperança acerca da transmutação das cores só pode indicar que aqueles que não podem se falar ainda têm tempo para viver. Quero dizer, uma esperença de afirmação; afirmação de que é necessário que o tempo não pare.
O sinal...
Eu procuro você...
Vai abrir!!! Vai abrir!!!
Eu prometo, não esqueço, não esqueço
Por favor, não esqueça
Adeus... Adeus...
Se o Eterno Retorno fosse da diferença seria muito difícil negá-la infinitamente. Elas irrompem doloridas, tal como a extração de um dente! O choque é inescapável, inevitável, e tão brutal quanto os insuportáveis momentos de sua negação...
Semáforo?!? Ele poderia mesmo ser o marido da metáfora...

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Subvertendo...

Bom Conselho
Chico Buarque

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sentidos do Absurdo: a leveza feminina para com os gritos emudecidos dos porões...


Em 1934-35, Salvador Dalí pintou El Rostro de Mae West. Em 1974 o quadro foi modelo de um apartamento surrealista, feito num quarto no Teatro-Museu Dalí, em Figueres (ES). Note que o Teatro-Museu mesmo já representa propriamente uma obra surrealista - Dalí, inclusive, acompanhou toda a sua construção insistindo nesse aspecto.
Mae West (1892 - 1980) foi atriz, escritora e criminalizada, consagrando-se no teatro com a peça "Sex", de sua autoria (1926), cujo enredo narra a história de uma prostituta do porto de Nova York. O espetáculo foi apresentado 375 vezes, até o momento em que a Sociedade para a Supressão do Vício conseguiu retirar a peça de cartaz. Condenada a 8 dias de prisão, por "corromper a juventude", seu nome foi identificado com o Profano tal como ele era/é concebido pelo puritanismo norte-americano.

Essa é a foto do apartamento que referi, numa das salas do Teatro-Museu Dalí, em Figueres.
A arquitetura é maravilhosa! Interessante demais olhar para cada detalhe... Por exemplo, situando-se no local onde esta foto foi tirada, é possível olhar para cima e ver que há um banheiro no teto, com banheira, inclusive. Atrás da parede que simboliza a cabeça de Mae West poderia não haver nada e esse quarto ainda seria Surreal.
Mas, pasmem(!), por um pequeno buraco, à esquerda de quem olha, mais ou menos onde se localizaria a orelha direita de Mae West, é possível ver alguma coisa parecida com o que, suponho, seja a sua consicência e os seus limites. É lindo! Insinuação abrupta do absurdo, tão bem demonstrada pelas obras surrealistas (R. Timm).
Choquem-se, é o rosto de uma mulher! Penso que talvez seja porque apenas as suas sutilezas permitem enxergar o que está ali e que é ao mesmo tempo invisível. Tal como a visão do encontro da Lua com as estrelas circundantes, não é porque a olho nú não enxergamos as estrelas que elas deixam de estar ali - o esclarecimento lunático apenas cega os olhos humanos... Não me parece em vão o uso simbólico do vazio cheio de algo que existe na cabeça de uma pessoa, da mesma forma que não pode ser à toa que esta pessoa seja uma mulher. Quero dizer, a encenação da permissão para que seja possível dar-se conta do que está "no ar" e não consegue ser afetado pelas palavras só poderia vir de uma mulher...
Os porões do olhar não-idêntico ganham ares fantasiosos contra toda racionalização alucinatória que confunde e identifica o que vê com a universalidade do verdadeiro (M. Seligmann-Silva). Irrompe uma bruma absurda diante da qual a "perfeição" e a "alucinação" podem ser vistas de braços dados - mas, claro(!), em nome da sanidade... Enquanto isso, os ratos saem dos porões para morrerem visivelmente nas calçadas (Camus, A Peste).
Desses porões saem também murmúrios que gritam (R. Timm) - que estão sempre gritando, mas que são freqüentemente deixados de lado, como sobras, restos, pois não se deixam caricaturar pela linguagem dicionarizada; dessa distância entre o dito, o visível, o verbalizado, e os não-ditos dos dizeres inverbalizáveis acerca do que já está ali e se deixa corroer pelo tempo, os Surrealistas se permitem conceber a consciência como o limiar do abismo (R. Timm).
Ora, existe alguma coisa na cabeça de Mae West e que é impossível de ser capitulada senão pelo tautlógico rótulo genérico alguma coisa. Nenhuma palavra poderá esvaziar e extrair a potência desagregadora advinda dos porões do inconsciente. Há mais na cabeça dos humanos do que as janelas abertas da nossa vã consciência. Daí a necessidade de deixar-se aflorar para que ocorra à percepção toda vasta região de sorrisos que existem entre a Lua e o Sol. Não seria possível sem a força de uma mulher...
Exsurge do buraco todo o irrazoável, desconcertante e absurdo abismo irrepresentável pela medrosa segurança racional. Não há nada naquele lugar. Há tudo ali. Tem uma cama e uma floresta - aliás, "se sentimentos fossem flores, tu serias uma Floresta" é o que encontro no filme Inconscientes (Joaquin Oristrell, 2004). O espelho despótico do real é quebrado pelo choque com a temporalidade, insuportável aos religiosos dos conceitos e religiosos da consciência. O surreal é o excesso de real, e a idéia fixa é a lógica loucura da morte, insuportável, agora, para quem tem o direito de dar a vida...

Conferir:

  • Ricardo Timm de Souza. Surrealismo e Espírito do Tempo.
  • Márcio Seligmann-Silva. Adorno.

sábado, 12 de julho de 2008

Descentramento do Eu, com Machado...

MUNDO INTERIOR

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol à ínfima luzerna.

Ouço que a natureza, -- a natureza externa--
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida,
Feiticeira que ceva uma hidra de Lerna
Entre as flores da bela Armida.

E contudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo,
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia – e dorme.

Machado de Assis

sexta-feira, 11 de julho de 2008

(Des)Encontros do Viajante...

Uma viagem é muitas vezes um desencontro com quem fica. Um encontro consigo no limiar da auto-sustentação. Se o poeta Vinicius de Moraes pôde afirmar que a vida é a arte do encontro não pode ser tão somente porque encontramos coisas, pessoas, monumentos, praças... Os odores da estrada devem indicar alguma coisa. Um longo passeio, uma longa estadia, no mesmo país ou no estrangeiro, é uma possibilidade, sempre, de se permitir sofrer, resistir, por isso, viver. A ranhura, antes singelamente percebida, agora, dado o abismo em que ela se metamorfoseou, já se permite engolir - tal como O Cão, de Goya. O viajante é o engolido; ninguém poderá salvá-lo, porque não há salvação. A própria idéia de salvação exigiria elocubrar matafisicamente que o andarilho necessitasse ser salvo. Mas, se isso não ocorre assim, penso, é porque a vida só pode ser a arte do encontro na medida em que comportar também os desencontros. E Vinicius sabia muito bem disso. Chico Buarque também: "O velho sem conselhos/ De joelhos/ De partida/ Carrega com certeza/ Todo o peso/ Da sua vida". Mágica da transvaloração? Talvez sim. Paradoxal? Pode ser, dependendo daquele que en-cara.
Ora, a vida tem peso, as flores têm perfume, um movimento deixa vestígios. Quem me dirá que abraçar o filho até o último minuto antes do embarque não extrapola qualquer metáfora que pretenda "explicá-lo"? O hoje nem tão velho pai, já sem conselhos, aguarda a partida do filho. Aquele carrega, com certeza, todo o peso da sua vida, todas forças e fraquezas que não pôde compartilhar com o viajante. Este, nem tão velho, mas de joelhos, de partida, carrega toda carga de amores e ódios que não puderam ser aliviadas pelas palavras. Excesso de bagagem(!)
O Saturno (Goya) que se descobre dentro de si e se agiganta nas andanças come, consome, destrói, aquela perspectiva de um mundo cheio de significados dados em plena harmonia com a beleza das coisas. Bueno, pelo menos desde Shakespeare a beleza está descolada da justiça e da verdade, numa espécie de conhecimento profano, mítico, artístico, trágico, por assim dizer. Não é a essência do Belo, nem da vida que o andarilho poderá conhecer, mas, antes, a impossibilidade mesma dessa essência ao se descobrir no lugar da diferença. Ora, o bosque deve andar ("Macbeth") para que o efeito catártico possa completar sua viagem...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Corroendo... com Jayme Paviani

O Relógio

I
Relógio parado é metáfora quebrada.

O tempo do relógio é rio
desde o princípio, nervos de aço
de instantes relâmpagos,
pássaro sem asas, trem que parte
de onde só é possível chegar.

Usina de inícios, máquina de auroras,
o relógio dificulta as horas.
Os ponteiros bailarinos extáticos
sobre si em equilíbrio
movem nascimentos e mortes.

Os atos medem o tempo do homem.
O relógio, caminho sem chuvas,
rocha sem outonos, corpo sem seiva,
casa ou coração em ruínas.

II
O relógio de parede comprime horizontes.

Vigia dos silêncios da casa
e de todas as algazarras da alma.
O relógio, crânio vazio do tempo,
espaço de estribilhos insatisfeitos
de sons ressequidos,
de folhas que caem esquecidas.

O relógio é uma Esfinge.
O tempo nasce das fontes
da criação primordial dos artistas
do pedido de perdão do poeta.

O relógio, louvor da solidão,
não sabe a hora da partida.

III
O relógio de pulso esse sim é duplo,
o tempo repetindo o ritmo da vida.

O homem também está nas coisas,
algo de ti pulsa em mim,
uma pulseira de emoções
os movimentos do mundo.

As gotas da chuva são segundos
o olhar tem a força do minuto,
o campo é vasto como as horas.

O relógio torna o mundo visível.
O invisível é só eternidade.

(Jayme Paviani, O Relógio. in "Antes da Palavra")

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Absurdas Palavras: ou, ainda sobre reticências...

Quantas palavras são necessárias para definir "dicionário"? E quantas outras são também necessárias para significar "diário"? "Diálogo", certamente, exige muito mais perspicácia... Gostaria muito de, pela boca de Brás Cubas, perguntar o quanto de insensatez é preciso para se livrar de uma idéia fixa? "Sua insensatez provocou a desarmonia do nosso viver..." é o que entoa um samba brasileiro. Ora, quem será o ilusionista que apunhalará ordem e coesão às palavras? Atenção(!), previna-se, não poderá fazê-lo sem antes limpar os óculos, porque essa poeira toda às vezes é mesmo dos óculos... Certamente, clareada a visão, o que aparecerá é o devaneio explicativo do sanitário, digo, da sanidade. Queria muito, mais uma vez, invocar o defunto autor e expor ante "o primeiro verme que roeu as frias carnes do seu cadáver", a vitória desses puros e saudáveis homens que "tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade", e, assim, dizer-lhes: "gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo". Lógico, é uma alucinação... os sapos não se escondem em poços, na mesma medida em que os dicionários explicam os sentidos das palavras. Teria sido imperioso perguntar, antes, quais palavras são desnecessárias para definir "palavra"? O que há de escondido no dito e que alquimicamente consegue preenchê-lo com não-ditos? É tão absurdo que palavras possam explicar palavras, quanto aceitar que elas pretendem significar coisas outras, diferentes das que irrompem do dito mesmo. Absurdo: "trata-se de respirar com ele, reconhecer suas lições e encontrar sua carne" (Camus). Um cheiro, um som, um passo indicam apenas o absurdo - miserável e irredutível - cujo absoluto sentido permanece eternamente desconhecido e escapa, porque pertence ao tempo, seu pior inimigo. Quero dizer, voltam a ser eles mesmos de maneira que qualquer apreensão é sempre Construção - e sua clareza depende da proparoxítona que lhe é atribuída (Chico Buarque). Dessa distância entre acontecimento e sentido pode extasiar toda diferença - do reino da arte. Vazio explendorosamente preenchido com a necessidade de sentidos outros que não suportam a cristalização, porque andam com o tempo e no tempo. Bueno, nunca vi reticências em dicionário - talvez o cego tenha conseguido, definitiva e conceitualmente, explicar o que significa som para o surdo...
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Conferir:
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
  • O Mito de Sísifo, de Albert Camus.
  • Construção, Chico Buarque.

domingo, 6 de julho de 2008

Reticências

...

É impressionante a magnitude das "omissões voluntárias de coisa que se devia ou podia dizer"; esse próprio conceito não comporta a gigante pequenez daquilo que elas significam... "Ouça um bom conselho/que eu lhe dou de graça/inútil dormir que a dor não passa(...)" Diferentemente de qualquer outra forma de terminar uma frase, elas não se permitem cristalizar... "Você disse que não sabe "se não"/mas também não tem certeza que 'sim'(...)" Parece que há, quase de forma boba, o encontro do próprio texto que a apresenta com a temporalidade que corrói o escritor e irrompe nas entranhas constitutivas do leitor... "Pois é!/fica o dito e o redito/por não dito(...)" Emburram-se "os" racionais, sorriem (sarcásticas?) as florestas; porque, sabem, a vida é feita de encontros desencontrados, amores odiados... "E a tua história, eu não sei/mas me diga só o que for bom(...)" É a sua existência que permite desidentificar dito e não-ditos, olhos e olhares, no tempo que nos dá a chance de, por essa distância, construir os sentidos... "Lilás cor do mar/seda cor de batom/arco-íris crepom..." Tudo o que elas não dizem, aquilo que não mostram, que escondem nas variadas caixas do seu corpo, é precisamente o que suporta preencher esse vazio por absurdos sentidos... "Trazem consigo, cadinhos/vasos de vidro/potes de louça/todos bem e iluminados(...)" Vigorosa fragilidade felina de quem se sabe felino, tal como a fragilidade humana de se acreditar humano... "Sonhei que o fogo gelou/sonhei que a neve fervia(...)" O mais interessante disso é que na própria falta, naquele vazio cheio de algo, é que se constrói o sentido, e não por dogmas, cuja eternidade não permitiria gastá-los... "É sempre bom lembrar/que um copo vazio/está cheio de ar(...)" A força desse não fechamento, a intensidade dessa permissão à abertura, perfura as barreiras congeladas que protegem os dogmáticos da poeira... "Sei que ela pode ser mil/mas não existe outra igual(...)" O que existe de não-enxergável nessa representação é justamente o que dá uma vasta gama de diferentes possibilidades de olhar a mesma descrição, de degustá-la... com o olhar, mas também com o cheiro, o sabor, a pele...

"Girafa em Chamas": ou, ainda sobre mulheres...

Salvador Dalí pintou Girafa em Chamas em 1936. A representação de uma mulher com gavetas abertas desde seu corpo, e com gavetas outras, ainda fechadas, pode imprimir um sentido crítico às crenças que fundam a pretensão de conhecer totalmente o humano. É justamente a essa impossibilidade que a figura da mulher irrompe como uma espécie de choque - choque da "alucinação sã" com o feitiço, o mistério, para os quais é insuportável o conhecer absolutamente.