segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sentidos do Absurdo: a leveza feminina para com os gritos emudecidos dos porões...


Em 1934-35, Salvador Dalí pintou El Rostro de Mae West. Em 1974 o quadro foi modelo de um apartamento surrealista, feito num quarto no Teatro-Museu Dalí, em Figueres (ES). Note que o Teatro-Museu mesmo já representa propriamente uma obra surrealista - Dalí, inclusive, acompanhou toda a sua construção insistindo nesse aspecto.
Mae West (1892 - 1980) foi atriz, escritora e criminalizada, consagrando-se no teatro com a peça "Sex", de sua autoria (1926), cujo enredo narra a história de uma prostituta do porto de Nova York. O espetáculo foi apresentado 375 vezes, até o momento em que a Sociedade para a Supressão do Vício conseguiu retirar a peça de cartaz. Condenada a 8 dias de prisão, por "corromper a juventude", seu nome foi identificado com o Profano tal como ele era/é concebido pelo puritanismo norte-americano.

Essa é a foto do apartamento que referi, numa das salas do Teatro-Museu Dalí, em Figueres.
A arquitetura é maravilhosa! Interessante demais olhar para cada detalhe... Por exemplo, situando-se no local onde esta foto foi tirada, é possível olhar para cima e ver que há um banheiro no teto, com banheira, inclusive. Atrás da parede que simboliza a cabeça de Mae West poderia não haver nada e esse quarto ainda seria Surreal.
Mas, pasmem(!), por um pequeno buraco, à esquerda de quem olha, mais ou menos onde se localizaria a orelha direita de Mae West, é possível ver alguma coisa parecida com o que, suponho, seja a sua consicência e os seus limites. É lindo! Insinuação abrupta do absurdo, tão bem demonstrada pelas obras surrealistas (R. Timm).
Choquem-se, é o rosto de uma mulher! Penso que talvez seja porque apenas as suas sutilezas permitem enxergar o que está ali e que é ao mesmo tempo invisível. Tal como a visão do encontro da Lua com as estrelas circundantes, não é porque a olho nú não enxergamos as estrelas que elas deixam de estar ali - o esclarecimento lunático apenas cega os olhos humanos... Não me parece em vão o uso simbólico do vazio cheio de algo que existe na cabeça de uma pessoa, da mesma forma que não pode ser à toa que esta pessoa seja uma mulher. Quero dizer, a encenação da permissão para que seja possível dar-se conta do que está "no ar" e não consegue ser afetado pelas palavras só poderia vir de uma mulher...
Os porões do olhar não-idêntico ganham ares fantasiosos contra toda racionalização alucinatória que confunde e identifica o que vê com a universalidade do verdadeiro (M. Seligmann-Silva). Irrompe uma bruma absurda diante da qual a "perfeição" e a "alucinação" podem ser vistas de braços dados - mas, claro(!), em nome da sanidade... Enquanto isso, os ratos saem dos porões para morrerem visivelmente nas calçadas (Camus, A Peste).
Desses porões saem também murmúrios que gritam (R. Timm) - que estão sempre gritando, mas que são freqüentemente deixados de lado, como sobras, restos, pois não se deixam caricaturar pela linguagem dicionarizada; dessa distância entre o dito, o visível, o verbalizado, e os não-ditos dos dizeres inverbalizáveis acerca do que já está ali e se deixa corroer pelo tempo, os Surrealistas se permitem conceber a consciência como o limiar do abismo (R. Timm).
Ora, existe alguma coisa na cabeça de Mae West e que é impossível de ser capitulada senão pelo tautlógico rótulo genérico alguma coisa. Nenhuma palavra poderá esvaziar e extrair a potência desagregadora advinda dos porões do inconsciente. Há mais na cabeça dos humanos do que as janelas abertas da nossa vã consciência. Daí a necessidade de deixar-se aflorar para que ocorra à percepção toda vasta região de sorrisos que existem entre a Lua e o Sol. Não seria possível sem a força de uma mulher...
Exsurge do buraco todo o irrazoável, desconcertante e absurdo abismo irrepresentável pela medrosa segurança racional. Não há nada naquele lugar. Há tudo ali. Tem uma cama e uma floresta - aliás, "se sentimentos fossem flores, tu serias uma Floresta" é o que encontro no filme Inconscientes (Joaquin Oristrell, 2004). O espelho despótico do real é quebrado pelo choque com a temporalidade, insuportável aos religiosos dos conceitos e religiosos da consciência. O surreal é o excesso de real, e a idéia fixa é a lógica loucura da morte, insuportável, agora, para quem tem o direito de dar a vida...

Conferir:

  • Ricardo Timm de Souza. Surrealismo e Espírito do Tempo.
  • Márcio Seligmann-Silva. Adorno.

5 comentários:

  1. "Há mais na cabeça dos humanos do que as janelas abertas da nossa vã consciência. (...) Exsurge do buraco todo o irrazoável, desconcertante e absurdo abismo irrepresentável pela medrosa segurança racional. Não há nada naquele lugar. Há tudo ali. (...) O espelho despótico do real é quebrado pelo choque com a temporalidade, insuportável aos religiosos dos conceitos e religiosos da consciência. O surreal é o excesso de real, e a idéia fixa é a lógica loucura da morte, insuportável, agora, para quem tem o direito de dar a vida...".
    PQP, meu! Do caralho!!

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  2. Deviam proibir essa postagem, EMBRIAGANTE!

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  3. Achutti e Zé, valeu pelos elogios!!
    Sempre na esperança de algum amigo goste do que escrevo...

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  4. Que alguém goste do que tu escreva?! Essa é a tua "esperança"?! Não deixa de escrever nunca, velho!!! Os blogs de vocês (teu, Divan, Moysés, Mayora, etc.) tão me dizendo muito mais do que os livros ultimamente... Abraço!!

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