Os oito anos
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Caro leitor, eu não me coloco em suas mãos, mesmo que o tenha em boa conta. Mesmo que sua atenção me surpreenda e que conheças o texto parafraseado, eu não seria louco de entregar-me aos seus socos e pontapés - não me colocaria em suas mãos e, talvez, tampouco lhe daria as mãos. Mas, sendo o senhor um homem probo e a sua senhora a expressão recalcada de toda essa probidade, nada pode supreender menos do que receber algumas pancadas - em nome de vossa atenção.
Enfim, há uma cena do filme O Menino de Pijama Listrado (2008) em que Bruno é surpreendido com a presença de Shmuel dentro da sua casa. Ambos têm oito anos, mas Shmuel ainda tem alguns socos e pontapés a mais. Afinal, o fato claro para Bruno é que "ninguém se chama Shmuel" e disso pode decorrer que, entranha e estranhamente, Shmuel é assassinável - mas isso só de fundo, no fundo, profundo, bem lá onde estão guardados os lixos tóxicos. Sim, leitor, até um determinado momento Shmuel ainda era um lixo, tendo em vista que lixo não tem nome próprio e que Shmuel já não deve ser nome de alguém - ambos como se não existissem, assassináveis, aniquiláveis, restos, por assim dizer.
Aliás, resto também é aquilo que um estranho animal defeca à direita das delícias terrenas, no trítico de Hieronymus Bosch. Come pessoas e defeca restos. Ou come restos e defeca pessoas, sempre à direita, claro. No inferno.
Bom, Shmuel está no inferno. E isso significa, pesme amigo!, que o inferno existe. Mas como não o tenho em boa conta, receio que o senhor acredite, diante disso, que o paraíso é, portanto, o correspondente lógico, claro. Shmuel está no inferno e ainda assim é assassinável. Paradoxo que fica ainda mais exposto na cena que quero comentar. Então Shmuel está na casa de Bruno, secando copos e ocupando o lugar deixado pelo vazio de uma presença morta de outra pessoa. Conversa com Bruno e, como costuma acontecer, o medo os surpreende - com(o) socos e pontapés que ontem assassinaram, e hoje herdam o vazio: o saldado entra na sala, briga e ofende Shmuel, a-briga e "assassina" Bruno. Diante da surpreendente força avassaladora do medo que irrompe célere, o que resta, claro, são socos e pontapés. Shmuel já tem olho roxo e dente quebrado antes mesmo da cena seguinte confirmá-los. E isso é tão pouco surpreendente que até uma criança de oito anos sabe. A cabeça baixa esconde o que a inimizade de Bruno confirma: que alguém pode ficar apanhando mesmo que outro alguém fique chorando por causa disso. E importa pouco que a surra não seja encenada, senão pelo mascaramento que corrobora a violência.
Há quem, com oito ou oitenta anos, ainda possa imaginar. E para estas pessoas talvez seja menos cruel que a cena seja exposta, pois lá no fundo, ao lado do lixo tóxico, encontram-se todos os horrores do que não pode ser mostrado - irrepresentável, por assim dizer.
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