terça-feira, 14 de julho de 2009

O-dor
-
Prezado senhor Espartilho, se um jurista lhe disser que falas em termos abstratos e que não há como negar realidade à forma como as coisas já existem, sugiro que não fale, não mova, não responda. Por outro lado, caso seu interlocutor seja um filósofo e lhe diga que o conceito da coisa é já a própria coisa e que isso, para o senhor, é inescapável, proponho que ria. Primeiramente aquele risinho de canto de boca; depois, quando concluída a douta sentença, uma gargalhada seria uma boa oportunidade de degustar essa conversa sem o seu próprio desvanecer. Ora, senhor Espartilho, a morte que ronda a sua porta há algum tempo é a melhor contestação silenciosa para tais delírios que se apresentam em forma de pessoas, de fardas, de togas, de boinas. Se a morte fede? Não sei, talvez não. Mas é uma boa pergunta a não fazer para os seus amigos. Sim, não faça. Eles irão mentir. São muito manhosos. Artimanhosos, de artimanha mesmo. Eles não sabem responder. Jamais poderiam. E enquanto isso lhes escapa, imputam inescapabilidade a suas próprias manias de pensar que as coisas lhes são inescapáveis. Não sentes cheiro de ralo, caro senhor?
----

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deguste e devaneie...