É impressionante a magnitude das "omissões voluntárias de coisa que se devia ou podia dizer"; esse próprio conceito não comporta a gigante pequenez daquilo que elas significam... "Ouça um bom conselho/que eu lhe dou de graça/inútil dormir que a dor não passa(...)" Diferentemente de qualquer outra forma de terminar uma frase, elas não se permitem cristalizar... "Você disse que não sabe "se não"/mas também não tem certeza que 'sim'(...)" Parece que há, quase de forma boba, o encontro do próprio texto que a apresenta com a temporalidade que corrói o escritor e irrompe nas entranhas constitutivas do leitor... "Pois é!/fica o dito e o redito/por não dito(...)" Emburram-se "os" racionais, sorriem (sarcásticas?) as florestas; porque, sabem, a vida é feita de encontros desencontrados, amores odiados... "E a tua história, eu não sei/mas me diga só o que for bom(...)" É a sua existência que permite desidentificar dito e não-ditos, olhos e olhares, no tempo que nos dá a chance de, por essa distância, construir os sentidos... "Lilás cor do mar/seda cor de batom/arco-íris crepom..." Tudo o que elas não dizem, aquilo que não mostram, que escondem nas variadas caixas do seu corpo, é precisamente o que suporta preencher esse vazio por absurdos sentidos... "Trazem consigo, cadinhos/vasos de vidro/potes de louça/todos bem e iluminados(...)" Vigorosa fragilidade felina de quem se sabe felino, tal como a fragilidade humana de se acreditar humano... "Sonhei que o fogo gelou/sonhei que a neve fervia(...)" O mais interessante disso é que na própria falta, naquele vazio cheio de algo, é que se constrói o sentido, e não por dogmas, cuja eternidade não permitiria gastá-los... "É sempre bom lembrar/que um copo vazio/está cheio de ar(...)" A força desse não fechamento, a intensidade dessa permissão à abertura, perfura as barreiras congeladas que protegem os dogmáticos da poeira... "Sei que ela pode ser mil/mas não existe outra igual(...)" O que existe de não-enxergável nessa representação é justamente o que dá uma vasta gama de diferentes possibilidades de olhar a mesma descrição, de degustá-la... com o olhar, mas também com o cheiro, o sabor, a pele...
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