segunda-feira, 7 de julho de 2008

Absurdas Palavras: ou, ainda sobre reticências...

Quantas palavras são necessárias para definir "dicionário"? E quantas outras são também necessárias para significar "diário"? "Diálogo", certamente, exige muito mais perspicácia... Gostaria muito de, pela boca de Brás Cubas, perguntar o quanto de insensatez é preciso para se livrar de uma idéia fixa? "Sua insensatez provocou a desarmonia do nosso viver..." é o que entoa um samba brasileiro. Ora, quem será o ilusionista que apunhalará ordem e coesão às palavras? Atenção(!), previna-se, não poderá fazê-lo sem antes limpar os óculos, porque essa poeira toda às vezes é mesmo dos óculos... Certamente, clareada a visão, o que aparecerá é o devaneio explicativo do sanitário, digo, da sanidade. Queria muito, mais uma vez, invocar o defunto autor e expor ante "o primeiro verme que roeu as frias carnes do seu cadáver", a vitória desses puros e saudáveis homens que "tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade", e, assim, dizer-lhes: "gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo". Lógico, é uma alucinação... os sapos não se escondem em poços, na mesma medida em que os dicionários explicam os sentidos das palavras. Teria sido imperioso perguntar, antes, quais palavras são desnecessárias para definir "palavra"? O que há de escondido no dito e que alquimicamente consegue preenchê-lo com não-ditos? É tão absurdo que palavras possam explicar palavras, quanto aceitar que elas pretendem significar coisas outras, diferentes das que irrompem do dito mesmo. Absurdo: "trata-se de respirar com ele, reconhecer suas lições e encontrar sua carne" (Camus). Um cheiro, um som, um passo indicam apenas o absurdo - miserável e irredutível - cujo absoluto sentido permanece eternamente desconhecido e escapa, porque pertence ao tempo, seu pior inimigo. Quero dizer, voltam a ser eles mesmos de maneira que qualquer apreensão é sempre Construção - e sua clareza depende da proparoxítona que lhe é atribuída (Chico Buarque). Dessa distância entre acontecimento e sentido pode extasiar toda diferença - do reino da arte. Vazio explendorosamente preenchido com a necessidade de sentidos outros que não suportam a cristalização, porque andam com o tempo e no tempo. Bueno, nunca vi reticências em dicionário - talvez o cego tenha conseguido, definitiva e conceitualmente, explicar o que significa som para o surdo...
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Conferir:
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
  • O Mito de Sísifo, de Albert Camus.
  • Construção, Chico Buarque.

2 comentários:

  1. Li teu post com os óculos sujos, literalmente. Aliás, meus óculos insistem em se sujarem, misturando-se a poeira que (des)constrói o mundo. Impossível limpá-los. Com a visão suja eu vi uma chuva de sapos (Magnólia, 1999 filme de Paul Thomas Anderson). Eles caíam sobre o meu carro espatifando-se. Não sei se choviam vivos, mas mortos estavam diante de mim. Talvez a verdade tivesse caido sobre minha cabeça em forma de sapo morto (a verdade estava morta?). Os sapos chovendo fogem do di(ário)-(rea)cionário, afinal chuva (dizem os "dicionaristas") é outra coisa. Engole-se o sapo com as batatas do vencedor (Quincas Borba).

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  2. Falemos do mestre LUPI e da maior de suas licoes (aqui, re-significada), sobre os ingenuos (ceguinhos...) que "deixam o ceu por ser escuro, e vao ao inferno a procura de luz"

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Deguste e devaneie...