O Relógio
I
Relógio parado é metáfora quebrada.
O tempo do relógio é rio
desde o princípio, nervos de aço
de instantes relâmpagos,
pássaro sem asas, trem que parte
de onde só é possível chegar.
Usina de inícios, máquina de auroras,
o relógio dificulta as horas.
Os ponteiros bailarinos extáticos
sobre si em equilíbrio
movem nascimentos e mortes.
Os atos medem o tempo do homem.
O relógio, caminho sem chuvas,
rocha sem outonos, corpo sem seiva,
casa ou coração em ruínas.
II
O relógio de parede comprime horizontes.
Vigia dos silêncios da casa
e de todas as algazarras da alma.
O relógio, crânio vazio do tempo,
espaço de estribilhos insatisfeitos
de sons ressequidos,
de folhas que caem esquecidas.
O relógio é uma Esfinge.
O tempo nasce das fontes
da criação primordial dos artistas
do pedido de perdão do poeta.
O relógio, louvor da solidão,
não sabe a hora da partida.
III
O relógio de pulso esse sim é duplo,
o tempo repetindo o ritmo da vida.
O homem também está nas coisas,
algo de ti pulsa em mim,
uma pulseira de emoções
os movimentos do mundo.
As gotas da chuva são segundos
o olhar tem a força do minuto,
o campo é vasto como as horas.
O relógio torna o mundo visível.
O invisível é só eternidade.
(Jayme Paviani, O Relógio. in "Antes da Palavra")
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