Uma viagem é muitas vezes um desencontro com quem fica. Um encontro consigo no limiar da auto-sustentação. Se o poeta Vinicius de Moraes pôde afirmar que a vida é a arte do encontro não pode ser tão somente porque encontramos coisas, pessoas, monumentos, praças... Os odores da estrada devem indicar alguma coisa. Um longo passeio, uma longa estadia, no mesmo país ou no estrangeiro, é uma possibilidade, sempre, de se permitir sofrer, resistir, por isso, viver. A ranhura, antes singelamente percebida, agora, dado o abismo em que ela se metamorfoseou, já se permite engolir - tal como O Cão, de Goya. O viajante é o engolido; ninguém poderá salvá-lo, porque não há salvação. A própria idéia de salvação exigiria elocubrar matafisicamente que o andarilho necessitasse ser salvo. Mas, se isso não ocorre assim, penso, é porque a vida só pode ser a arte do encontro na medida em que comportar também os desencontros. E Vinicius sabia muito bem disso. Chico Buarque também: "O velho sem conselhos/ De joelhos/ De partida/ Carrega com certeza/ Todo o peso/ Da sua vida". Mágica da transvaloração? Talvez sim. Paradoxal? Pode ser, dependendo daquele que en-cara.
Ora, a vida tem peso, as flores têm perfume, um movimento deixa vestígios. Quem me dirá que abraçar o filho até o último minuto antes do embarque não extrapola qualquer metáfora que pretenda "explicá-lo"? O hoje nem tão velho pai, já sem conselhos, aguarda a partida do filho. Aquele carrega, com certeza, todo o peso da sua vida, todas forças e fraquezas que não pôde compartilhar com o viajante. Este, nem tão velho, mas de joelhos, de partida, carrega toda carga de amores e ódios que não puderam ser aliviadas pelas palavras. Excesso de bagagem(!)
O Saturno (Goya) que se descobre dentro de si e se agiganta nas andanças come, consome, destrói, aquela perspectiva de um mundo cheio de significados dados em plena harmonia com a beleza das coisas. Bueno, pelo menos desde Shakespeare a beleza está descolada da justiça e da verdade, numa espécie de conhecimento profano, mítico, artístico, trágico, por assim dizer. Não é a essência do Belo, nem da vida que o andarilho poderá conhecer, mas, antes, a impossibilidade mesma dessa essência ao se descobrir no lugar da diferença. Ora, o bosque deve andar ("Macbeth") para que o efeito catártico possa completar sua viagem...
penso que o fundamental da viagem é o retorno. o retorno a si mesmo.
ResponderExcluirA viagem nos expõe diretamente à diferença. Nada mais é necessário para "fundamentar" uma viagem. Essa exposição, pelo efeito que pode produzir, é suficiente...
ResponderExcluirA viagem parece um lançamento ao desconhecido, ao estranhamento, à alteridade na sua faceta mais crua. O encontro com a diferença, como disseste, é também desencontro, traumático, resta sempre algo que sobra, a simetria absoluta só existe no mundo metafísico -- é essa sobra ou assimetria que justamente justifica a responsabilidade infinita pelo Outro.
ResponderExcluirGurizada, o retorno a si mesmo, bem como a exposição ao Outro são coisas INESCAPÁVEIS numa viagem. No nosso mundo diário e nativo, nossa viagem só pode se deparar com o abismo do nosso mundo interior...
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