terça-feira, 22 de julho de 2008

Insuportáveis Semáforos Brutos...

Sinaleira fechada. Isso quer dizer que a luz vermelha incendeia os olhos do motorista que, angustiado, espera pelo verde. É mais ou menos com esse cenário que o Primeiro Cego ficou tomado por uma "resplandecente brancura" que não lhe permitiu por um tempo enxergar as cores do mundo (J. Saramago, Ensaio sobre a Cegueira).
Na vida das simplórias pessoas que enxergam, o Sinal Fechado pode ser um lugar de encontro, tal como na música de Paulinho da Viola:
Olá, como vai
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe?
Encontro fugaz do qual emergem trocas de olhares que se sabem sofridos, inseguros. Ora, as cores do mundo ardem nos olhos e doem na carne daqueles que se permitem não dormir, pois, sabem, a dor não passa (Chico Buarque, Bom Conselho). É como os desencontros dos amantes que sentem a delicadeza da felicidade, inconcebível sem a infinitude da tristeza.
Quanto tempo...
Pois é, quanto tempo...
Tanto coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer, mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso beber alguma coisa rapidamente
Pra semana...
Em breve, porém, o sinal deve abrir, independentemete daquele que cegou e das buzinas que não deixa de ouvir. A esperança acerca da transmutação das cores só pode indicar que aqueles que não podem se falar ainda têm tempo para viver. Quero dizer, uma esperença de afirmação; afirmação de que é necessário que o tempo não pare.
O sinal...
Eu procuro você...
Vai abrir!!! Vai abrir!!!
Eu prometo, não esqueço, não esqueço
Por favor, não esqueça
Adeus... Adeus...
Se o Eterno Retorno fosse da diferença seria muito difícil negá-la infinitamente. Elas irrompem doloridas, tal como a extração de um dente! O choque é inescapável, inevitável, e tão brutal quanto os insuportáveis momentos de sua negação...
Semáforo?!? Ele poderia mesmo ser o marido da metáfora...

2 comentários:

  1. Sem querer parecer sabichao, mas faz algum tempo que percebi no Sinal Fechado do MESTRE Paulinho a ilustracao mais perfeita da "liquidez" relacional dos nossos tempos, descrita sem melodia, mas com poesia, por Zygmunt Bauman

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  2. Lindo! Chorei antes do sinal abrir.

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Deguste e devaneie...