domingo, 31 de agosto de 2008

Túneis: ou, nós na garganta...

Tem algo de patológico na angústia. Os médicos, os psicólogos, os juristas, enfim, os industriais da nossa cultura, diriam: “claro, isso já sabemos. Inclusive possuímos as soluções para essa infelicidade!” Soberbamente imputam ao pathos que se lhes consubstancia a angústia o seu logos – como luz no fim do túnel. Quando analisam o medo, por exemplo, não enxergam nele explosão de vida. Não conseguiriam fazê-lo – o medo só pode estar ligado àquilo que a sua lógica consegue(ria) salvar. Pois é, o túnel... é de simples e fácil constatação que há uma saída ao final; qualquer louco que pretenda questionar essa obviedade tão sã, ou tão só, não passaria longe do hospício. Mas... e quando o túnel somos nós? E se o posto de maquinista estiver vazio? E se o algo que está no lugar do maquinista for tão invisível quanto inconcebível? E quando a queda toma direção da crosta terrestre? (Dürrenmatt) Bom, para esses casos existe a inversão: o túnel no fim da luz. Enquanto isso, a angústia continua sendo aquela pretensão de se antecipar temporalmente ao tempo da decisão. Sim, tautológico mesmo(!) E as Chacretes, assim como os industriais, continuam, à Jorge Ben, balançando a pança... Foi mesmo diante disso (mesmo que não-comprovado-empiricamente) que Chico Buarque escreveu: “preciso não dormir/ até se consumar/ o tempo/ da gente...”. Quer dizer, a angústia tem a ver com o peso – mais ou menos como aqueles mil quilos de penas presas num saco transparente; pois é, justamente as penas... elas são como flores, mesmo que mais frágeis, pois desprovidas de espinhos. Sim, o patológico na angústia pode ser a pretensiosa alucinação de livrar os humanos dela.

Para tudo isso conferir: http://tunelnofimdaluz.blogspot.com/
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3 comentários:

  1. Parece que a angústia, assim como o tempo, nos corrói e nos constitui, na medida em que “talvez as belas vitórias dependam mesmo de verdadeiras angústias”(ACP).
    Parabéns pelo texto, adorei!Beijos...

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  2. Não consigo me livrar da angústia de Heidegger, da angústia que dá acesso ao "nada" que vela o ser.

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  3. hoje vou dormir bem com a minha angústia, não a quero patológica... mas começo a me angustiar com o fato de que seria patológico me livrar dela... e se durante a noite ela me escapa!? Que angústia pensar que eu poderia perder a minha agústia!

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