quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Olhos e Olhares, Forças e Fraquezas: ou, a auto-crítica de Semáforo...

"Quantos olhares há sobre uma pessoa? Cada pessoa tem o seu olhar, sempre vesgo, e constrói a sua realidade a partir do que consegue enxergar dela, sempre cego... Essas diferenças de olhar não podem esquivar-se da relativização, mas também não o podem da realidade máxima, que é a presença do outro olhar." Foi assim que Semáforo iniciou sua escrita. Queria fazer poesia. Acabou escrevendo. Algo. Sensível ao que de realidade poderia perceber no mínimo contato com o que não era ele, só pôde dar-se conta, como ocorre com aqueles restos indizíveis que as palavras nunca alcançam, que sua melhor amiga, a Metáfora, não enxergava as coisas da mesma forma. Claro, ele não poderia ver, tatear, farejar, de maneira diferente, nesse momento; só lhe restava deixar a si mesmo dar-se conta. Perguntava-se: "aliás, o que sobra para além daquilo que eu mesmo consigo construir em relação à esta diferença?" A questão permaneceu... tocada e retocada, dita e redita, não-dita e desdita. Primeiramente, e por muito tempo foi assim, pensou que essa diferença fosse por causa da cor dos olhos - Metáfora os possuía azuis, Semáforo, pretos.
Lembrou que quando era criança imaginava-se, ainda, como seus parentes o faziam crer que ele mesmo era. Parou. "Como pode?", perguntou-se. "Eu mesmo não sei o que sou na diversidade e multiplicidade daquilo que posso ser... Quem é que pode saber quem eu sou verdadeiramente na minha essência?" A cor dos olhos deve indicar alguma coisa. Inclusive, talvez, pode indicar tudo, menos valores. Diante do choque, este narrador, onipresente, violento e, como não poderia deixar de ser, vesgo, elaborava: qual dos contrários será que Semáforo encenava no momento mesmo em que escrevia?
A reflexão lhe deu a chance, e inclusive ao narrador, de simplesmente, pensar que "na real" um jogador de futebol qualquer pode estar jogando por salário apenas, mas pode, por outro lado, estar correndo para o torcedor, para a sua própria gana e não grana; que realmente ele pode estar ali com toda a sua sensibilidade, tal como Semáforo o desejaria. Abismado, ele cogitou, então, que de alguma maneira, seus colegas dos tempos do colégio pensavam algo sobre ele que não dizia respeito ao quê ele era, mesmo que naqueles tempos ele próprio acreditasse que representava o que exigiam dele que representasse. É incisivamente paradoxal. Já não sabia se teria sido aquilo ou se não poderia deixar de ser daquele jeito, naquele tempo. Baseara todo seu comportamento, suas conversas, suas percepções de realidade, na imagem que fazia da imagem que os outros faziam dele. O próprio fato de acreditar, agora, em percepções já indicava uma crítica. Semáforo angustiava-se ao lembrar. Sua auto-crítica era dolorida demais. O recheio dos instantes vividos era preenchido com mel, mesmo que preferisse abacaxi. Espanto, porém! A vergonha por desnudar a sua violência, era, paradoxalmente, jogada para fora com um sorriso. Refletia, gritava e sorria. A Metáfora, contudo, só enxergava o sorriso, visto que pasmado, Semáforo gritava mudo. Poderia sorrir, pois justamente era a sua sensibilidade que possibilitava jogá-lo no tempo e encontrar, também, alguma inexplicável constância, naqueles momentos de crise. Deu-se conta: a chance de sorrir era a chance de encontrar. A sua posição crítica, subversiva, mal-entendida, estava a lhe dizer, por sussurros, que ele realmente poderia ser assim; poderia, sim, aceitar a cultura não obstante seus influxos contra-culturais; poderia aceitar-se, concomitantemente, crítico e filho.
Como se fosse o reverso do estar de ponta cabeça, mas que não é apenas estar de pé, pois não há como ficar incólume ao fato de que há instantes o sangue subira bruscamente às têmporas, Semáforo sentiu que as críticas que freqüêntemente dirigia aos outros da sua racionalidade, não poderiam sobreviver, senão pelo fundamento das quais emergiam. Fundamento que também é seu próprio limite. O também sempre é, e o sempre também é, sempre também, pensou. Coincidência dos opostos, lógica da conjunção, crenças, olhos, azuis e pretos...
Talvez Semáforo quisesse mesmo ser artista como sua mãe queria lhe pintar... Mas isso é uma crença, apenas, do narrador.

5 comentários:

  1. "Como se fosse o reverso do estar de ponta cabeça, mas que não é apenas estar de pé, pois não há como ficar incólume ao fato de que há instantes o sangue subira bruscamente às têmporas, Semáforo sentiu que as críticas que freqüêntemente dirigia aos outros da sua racionalidade, não poderiam sobreviver, senão pelo fundamento das quais emergiam."

    Genial!!!
    diria minha avó, dona Docinha: "Quem não te conhece, te compra!". eu digo: qm quer te (re)conhecer, deve ler tua última postagem (risos!).

    bjo e parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Discurso

    E aqui estou, cantando.

    Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
    deixa seu ritmo por onde passa.

    Venho de longe e vou para longe:
    mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
    e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
    andaram.

    Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
    mas houve sempre muitas nuvens.
    E suicidaram-se os operários de Babel.

    Pois aqui estou, cantando.

    Se eu nem sei onde estou,
    como posso esperar que algum ouvido me escute?

    Ah! Se eu nem sei quem sou,
    como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

    Cecília Meireles


    Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
    Alguém que veio ao mundo pra me ver,
    E que nunca em vida me encontrou!

    Florbela Espanca


    Juriká, adorei cada palavra!

    ResponderExcluir
  3. Esse post é meio abissal, meio prismático, e fica a dúvida de todo grande texto - será que Semáforo percebeu o quão sutil, semametafórico, solidamente metafórico num corpo - sema - com sangue nas têmporas, conseguiu ser - ?-?

    ResponderExcluir
  4. "Cada pessoa tem o seu olhar, sempre vesgo, e constrói a sua realidade a partir do que consegue enxergar dela, sempre cego... Essas diferenças de olhar não podem esquivar-se da relativização, mas também não o podem da realidade máxima, que é a presença do outro olhar."

    Lembrou-me Derrida, quando ele fala que antes da questão do estrageiro (sobre o estrangeiro, a estrangereidade, etc) vem a questão DO estrangeiro (do estrangeiro que me interpela).

    ResponderExcluir
  5. e o que seria do semáforo se não houvesse aquele olhar de esperança de quem espera (e, talvez, nunca alcança)...

    ResponderExcluir

Deguste e devaneie...