Em 1931 Salvador Dalí pinta "A Persistência da Memória ou Relógios Moles". Segundo o próprio Dalí, "Sempre me perguntam por que os relógios são moles, e eu respondo: 'Um relógio, seja duro ou mole, não tem a menor importância, o que importa é que assinale a hora exata'. Nesse quadro, começa a haver sintomas de chifres de rinoceronte que se destacam, servem de alusão exata à desmaterialização constante desse elemento e se transformam cada vez mais em um elemento místico". Um pouco antes disso, em fins do século XIX, Monet pinta em inúmeras telas num mesmo dia "A Catedral de Rouen", numa série que ficou conhecida como Vistas da Catadral de Rouen. "Assim pintava um pouco de cada uma das 12 ou mais telas em uma mesma sessão, correspondendo cada tela a um novo matiz de tonalidade ou a uma mudança de direção da luz solar ou da disposição da cena". Segundo seus biógrafos, "O problema para Monet era que 'tudo muda, inclusive a pedra', obstinado como estava em vincular conjuntamente o observador, o objeto luz e atmosfera". No mesmo fin dè sècle Guy de Maupassant escreve suas impressões fantásticas do absurdo em vários contos; num deles, chamado "Carta de um Louco", ele demonstra a insuficiência do humano em dar conta da realidade - que escapa, que excede, àquilo que os meros cinco sentidos podem captar. Segundo o tradutor e comentador brasileiro José Thomaz Brum, a dissolução apresentada por Maupassant emerge da liquidez do sólido, que só pode ocorrer com a percepção da temporalidade corrosiva. Bueno, não é à toa que este é o mesmo fim do século que permitiu à Francisco Goya enxergar monstros ao adormecer da Razão - quero dizer, exsurge desse tempo constitutivo e corrosivo a sutil percepção de que o homem é muito mais do que uma máquina pensante. Shakespeare, tragicamente tão elogiado por Nietzsche, teve que assinalar primeiro que "há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a vã filosofia", para em seguida poder dizer, mais uma vez pela boca de Hamlet, que "nosso tempo está desnorteado". Ora, a distância entre o visto e o visível, entre o dito e os não-ditos é o contrário, talvez, do que representação pode significar. Claro ao contrário (à Estamira) que René Magritte não pôde se furtar à toda essa sensível questão de olhar. Assim, em 1933 ele pinta "A Chave do Campo" e em 1938 "A Duração Apunhalada", indicando, também, que o real é muito mais espesso do que os olhos são capazes de figurar, e que não há possibilidade da própria figuração enquanto o segundo não passar - de maneira que nada é incólume ao tempo. Nem mesmo o relógio. Inclusive aquele relógio pintado por Dalí não está a salvo. Pois, o tempo não é ele, não está nele senão apesar dele. Da mesma forma as Catedrais do Monet, cujas diferenças não poderiam ser localizadas a não ser temporalmente.
Atentamente Palavra escutava tudo isso de sua filha. Já eram dez horas da noite e quem não queria dormir dessa vez era a mãe. Há tempos Palavra não precisava colocar sua filha para dormir. Aliás, há tempos Caricatura não se deixava dormir acariciada pela sua mãe. Pelo menos desde que Projeto e Projeção, os cachorros da família, foram atacados por uma doença inexplicável, Caricatura abdicou dos caminhos salvacionistas e curandeiros que lhe impunha sua mãe, a Palavra. Agora, porém, o rompimento parecia estar sendo aceito. Parecia que, de alguma forma, Palavra estava a aceitar que não poderia representar o real senão por um olhar um tanto vesgo. Era difícil acreditar, mas a crítica por vezes polêmica de Caricatura entrava por baixo das unhas da sua mãe e penetrava corrosivamente seus olhos. Toda necessidade de aceitar e dar voz à sua filha, consubstanciada num tremendo momento de violência, devido as escolhas díspares que ela fazia - que foi o motivo, inclusive, quase comprovado por lógicos nexos causais, da morte dos cães - pareceu enfraquecido naquele singelo momento de escuta. O que Caricatura estava querendo dizer profundamente para sua mãe era que o que se enxerga de uma pessoa não é ela absolutamente, antes a sua mera caricatura representada. É tudo ao contrário do que a vida inteira ouvira dentro de casa. É o avesso daquilo que enxergava Palavra quando via Caricatura acariciar Projeto e Projeção, antes de morrerem.
Chocada com tudo isso, Caricatura notou que o relógio já marcava três horas da manhã. Sentiu um tremor na cama. Era Irrepresentado, seu irmão. Chegou da festa, subiu no beliche e acordou Caricatura que dormia na cama de baixo. Ela levantou e o relógio marcava realmente três horas. Palavra dormia no seu quarto; não podia ser atrapalhada, pois amanhã continuaria seu intento: já estava na letra "N" do alfabeto e queria acabar seu dicionário até o próximo mês. Pensou: o relógio não é o tempo, apenas sua caricatura. Voltou a dormir; sonhou com monstros.
DALÍ. "A Persistência da Memória ou Relógios Moles"
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MONET. "Catedral de Rouen"
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GOYA. "O Sono da Razão Produz Monstros"
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MAGRITTE. "A Chave do Campo"
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MAGRITTE. "A Duração Apunhalada"
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Conferir:
DALÍ. Coleção Gênios da Arte. Ed. Girassol
DALÍ. Ed. Taschen
MONET. Coleção Gênios da Arte. Ed. Grassol
MAGRITTE. Ed. Taschen
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Gosto muito de ler os teus textos, mas esse me chamou atenção em especial. Talvez porque acho esse quadro do Dalí simplesmente genial (não por outra razão a estou usando como imagem de exibição no msn). Talvez, também, por ter-me identificado de certa forma com Caricatura... O que realmente importa é que se trata de um texto mais do que genial, mas de um texto “gênio” (hehehe). Parabéns, Juriká.Está excelente!
ResponderExcluirRoudinesco te diria: "Como teologia leiga, o cientificismo acompanha incessantemente o discurso 'da' ciência e a evolução 'das' ciências na pretensão de resolver TODOS os problemas humanos por uma crença na determinação absoluta da capacidade que tem 'A' Ciência de resolvê-los." ("Por que a Psicanálise?", p. 60).
ResponderExcluirÉ tudo caricatura, velho! Não tenho dúvida!! E cada um vê a caricatura a partir de suas próprias luzes, sombras, idéias, percepções... Sensacional, meu!! Abraço!!
Maravilhoso!
ResponderExcluirA Palavra nunca será o dicionário, sorte da caricatura.