sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A Desestabilização dos Loucos, ou: sobre medo, diferença e seu desenfeitiçamento...

Ainda eram três horas da tarde e Cachimbo não se considerava atrasado, mesmo que não pudesse conter a ansiedade pela espera do ônibus, principalmente depois da cena que presenciara amargamente. Uma sutileza não lhe deixava sossegar; talvez tenha sido o filme da noite anterior ou mesmo a visita ao circo há dois dias atrás que lhe azucrinavam, ainda, a necessária organização das coisas em quadros-belos. Ora, a identificação entre diferença e erro, ou, mais veementemente, entre medo e ódio irrompiam-lhe os olhos e os nervos. Como não se dar conta? Como fingir que não vê? Lembrou do filme e do livro: talvez mesmo sejamos cegos que vendo, não vêem.
Ao chegar na parada de ônibus já estavam estáticos e nojentos Vômito e Mijo dentre outros esperençosos. Claro, Cachimbo percebeu a tensão imediatamente, até porque seu olfato não lhe permitiria o contrário: realmente a expulsão ativa do conteúdo gástrico, assim como a excreção renal provocavam-lhe certa náusea. Semelhante, talvez, ao que tenha sentido Gravata (que de borboleta não tinha nada) ao ter presenciado as expulsões, em plena via pública, de Entretanto. Este que, em seguida, atravessou a rua, cavou um buraco com as próprias mãos no cantanteiro em frente e agarrou o máximo que pôde de terra em suas mãos, voltando imediatamente para o local "profanado". Como não poderia deixar de ser, o agito foi total: entre fingir-que-não-vê, desprezo e medo, Gravata não se conteve e, a passos firmes, mudou a direção do seu caminho - ora, pouco importava agora se estava atrasada, se tinha compromisso; a sua sanidade lhe roubava o tempo necessário da decisão. Atravessou a rua e abandonou a parada, enquanto Vômito e Mijo, dentre outros, ainda mantiveram-se por ali, já preparados para qualquer necessidade de força maior, com a exculpante, claro, do caso fortuito.
Cachimbo, justificando seu apelido, Louco, notava as bizarras movimentações e olhava atentamente para Entretanto que, aproximando-se, falou qualquer coisa incompreensível e, para desagrado dos demas presentes, não jogou o punhado de terra em ninguém; pelo contrário, despejou-o com enorme serenidade sobre suas excreções, de forma a deixar o local menos nauseante possível. Bom, bateu as palmas da mão tirando o excesso de terra e continuou seu caminho, para desagrado da platéia que deveria resignar-se sem poder exercer seu desejo físico de aniquilação do diferente.
Tal como a bonita imagem do fumante de cachimbo que ao tragar traga a si mesmo, de modo que também é o próprio cachimbo que fuma o fumante - o que se expressa na nuvem espessa de fumaça jogada pra fora pelos pulmões, o medo dos sãos cria realidade, cuja irreal causa não nega a real conseqüência dos efeitos nocivos da redução do diferente à lógica de quem olha. Entre imagem, fumaça e medo, Cachimbo levantou a cabeça. O rosto um pouco amassado chamou a atenção do professor que continuava a explicar as funções e funcionamentos do pulmão e sua importância para o funcionamento de todo o corpo, e não se abalou com mais um relapso daquele aluno que recusava-se a usar sapato branco e frequentemente dormia nas aulas. Para Cachimbo, porém, sua loucura era mais sã do que a sanidade que se auto-atribuiam os homens de branco que insistiam em querer ensinar-lhe a desenfeitiçar o estranho. Ora, talvez justamente por isso ele lembrava agora do seu sonho e de uma leitura profana que realizara há pouco; em relação à isso escreveu: "entre enfeitiçamento e desenfeitiçamento há uma tensão pela qual o são enxerga o louco, reduzindo seu feitiço à lógica imprópria pela qual enxerga/vê; ou, antes, o Outro tem/possui um feitiço, a sua própria outridade e o medo desse feitiço reconhecido impõe a necessidade do seu desenfeitiçamento - a sua redução ao que dele os olhos do lógico/são/normal podem compreender."
Irônico, o professor perguntou o que Cachimbo havia anotado e, especificamente, qual era a função do pulmão. Ele tentou dizer que escrevia sobre pulmões, mas que Gravata, sua colega, poderia certamente responder melhor essa questão. Foi expulso da aula - afinal, era um claro espaço para sãos engravatados.
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Um comentário:

  1. "Ao chegar na parada de ônibus já estavam estáticos e nojentos Vômito e Mijo dentre outros esperençosos."

    G-E-N-I-A-L!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Me dá uma alegria saber q o mijo e o vômito estão ali para "acudir" os sãos engravatados em caso de força maior. Cachimbo certamente foi parar no soe (serviço de orientação educacional!?!?!?!).

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