terça-feira, 30 de setembro de 2008

Catástrofe da Barbárie Única, ou: sobre gravatas cor-de-rosa...

A Rosa de Hiroxima
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Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Vinicius de Moraes
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Nós, entre Alucinação e Crise: ou, ainda sobre gravatas...

Quando Metáfora se deu conta já não estava mais no Circo, de modo que ele não importunava mais seus inquietos pensamentos. Agora só lhe restava esperar aquele próximo momento em que, à flor da pele, escorreriam poucas lágrimas; de dor, de excitação, de vergonha... Nada que pudesse indicar a mínima parcela do que sentia. Realmente nem Circo nem Platéia poderiam ajudá-la; tampouco haviam conseguido suportar o abuso da razão há instantes proporcionado pelo frenesi metafórico. Ora, já haviam lido Kafka, Beckett, Saramago, Shakespeare, Dürrenmatt, e concordavam, à Camus, que é sempre cômodo ser lógico mas quase impossível sê-lo a fundo; um pouco antes de verem o filme que deflorou e deflagrou a falta de sincronia da tríade, leram o conto "Carta de um Louco", de Guy de Maupassant: debateram, discutiram, conversaram, apontaram, encontraram-se e desencontraram-se, enfim, degustaram aquela literatura embriagante até chocarem-se com as belas figuras críticas que eram pintadas pelo "fantástico" autor que, aparentemente, conseguiam entender.
Duas opções de filmes: "Amores Brutos", do Iñárritu e "O Discreto Charme da Burguesia", do Buñuel. Ambos escolhidos com a paciência e o desejo necessários para encontrar a fragrância sensível das afinidades que acreditavam ter e, principalmente, buscavam apontar. Entre "qualquer-um" e "pode-ser", Metáfora optou por aquele que parecia de mais difícil leitura, ou melhor, de distâncias mais profundas entre o dito e os não-ditos: Buñuel. Sem esquecer o incenso e o vinho Circo, dono da casa, apagou também as luzes. Já tinham visto cerca de trinta e poucos minutos, quando Platéia pediu, com a aprovação dos demais, para iniciar novamente a reprodução, pois um "quê" de incomprreensão pairava na atmosfera esfumaçada da sala da TV. Realmente o filme exige atenção; não pode ser singelamente entendido por olhos neutros, desatentos ou acríticos, para não dizer burgueses. Ora, o charme é discreto e o momento mesmo em que começa a ferir, tal Prometeu e Abutre, o corpo todo dos espectadores, já não se consegue responder às perguntas sobre quando que isso começou, como se deu, qual a explicação. Figuras, imagens, cores, representações, todas desproporcionalmente impossíveis de serem capituladas pelo fetiche lógico da lógica-coerência.
Claudel, Calígula, Estamira, todos pretensamente entendidos por aqueles jovens admiradores das artes, ficaram desconhecidos frente a ininteligibilidade que opunha, agora, Metáfora contra Circo e Platéia. Tal como aquele quarto reformado que fala em ecos com seus usuários apenas para dizer que a realidade das diferenças é visceral com quem permite-se chocar a fundo, Metáfora já não suportava os tampões nos ouvidos dos amigos que, por sua vez, já tinham tolerado demasiado as imagens desagregadas e metafóricas que lhe irrompiam a íris. Não podiam mais esconder o ressentimento que essa tolerância projetava. Foi aí: discussão, gritos e ironias mal-entendidas...
Chegou em casa, tomou um pouco de vinho e escreveu. Essa foi a forma, e apenas por devaneios literários, que Metáfora conseguiu expressar a idiota sensação de mal-estar que vivenciara há pouco, na primeira aula do quinto semestre da faculdade, quando desejou debater questões críticas que permeavam a matéria e foi absolutamente vaiada pela platéia que se formou, transformando auditório em circo.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Alucinação do Olhar: ou, sobre coisas ardentes e chocantes...

As Cores
Eduardo Galeano

"Em algum lugar do tempo, além do tempo, o mundo era gris. Graças aos índios ishir, que roubaram as cores dos deuses, o mundo agora resplandece; e as cores do mundo ardem nos olhos de quem as olham.
Tício Escobar acompanhou uma equipe de televisão que veio ao Chaco filmar cenas da vida cotidiana dos ishir. Uma menina indígena perseguia o diretor da equipe, silenciosa sombra pendurada ao corpo dele, e o olhava fixamente no rosto, de muito perto, como querendo entrar nos seus raros olhos azuis.
O diretor recorreu aos bons ofício de Tício, que conhecia a menina, e a curiosa lhe confessou:
- Quero saber de que cor o senhor vê as coisas.
- Da mesma cor que tu, sorriu o diretor.
- E como o senhor sabe de que cor eu vejo as coisas?"
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Texto disponível em "Escritos em Homenagem a Alberto Silva Franco". SP: RT, 2003.