sexta-feira, 27 de junho de 2008

Presença na Ausência: sobre cortes, gravações e areia...

Supondo que a verdade seja uma mulher, não surpreende que os filósofos dogmáticos entendam pouco de mulheres, inicia mais ou menos assim Nietzsche o seu "Além do Bem e do Mal". Crítica contundente à metafísica racional, bem como apontamento trágico de que a verdade só pode se dar por aparência - reino brilhante e opaco da insegurança, que faz sentir a felicidade e a tristeza, o riso e a seriedade por se saber vivo. Nas palavras de Vinícius de Moraes, em Samba da Bênção, por se saber mulher.
Mas "o que será que será(?)", grita Chico Buarque, "que todos os risos vão desafiar(?)" e que se metamorfoseia no "que será que me dá(?)", brotando a flor da pele e fazendo corar? Algumas mulheres sabem - mulheres de Atenas? Não sei, talvez... Parece-me que elas sabem muito profundamente, e podem sentir à flor da pele, que um corte no dedo indica a impossibilidade de desprezar a mínima parcela da sensibilidade humana - o mero movimento de pegar uma xícara de chá não resiste a ínfima e nova abertura da ferida que espera por cicatrizar. Todos outros movimentos, todas as outras decisões, ficam, agora, condicionadas à proteção daquilo que está machucado. Elas conseguem, contra toda alucinação, deixarem-se desvairar com o fato de que uma singela reprodução gravada da voz do seu amor já morto, representa, também, a presença dele. Podem, arrebatadoramente, escutar muitas vezes a mesma repetição e aceitar - e essa é toda a diferença - que isso é demasiadamente humano. Assim como uma pegada na areia de praia indica que alguém passou por ali, deixou vestígio, e que, de alguma forma, ainda está ali ausente na sua presença...
Não há lógica que dê conta das mulheres, não há analistas ou dogmáticos que possam compreendê-las, porque o animus logocêntrico está muito aquém do que elas representam. Aliás, não me parece à toa que os homens são filhos de mulheres, com toda carga psicanalítica que isso pode assumir.

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Diálogos...
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Zé Linck comentou por email e fica postado aqui:

Opinião pseudo-artística: Me lembrou o clássico trecho "saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Foda-se que a carne fedeu-fedeu-fedeu e já sumiu, eu não preciso explicar que a lembrança de dor e amor re-presentam e isso basta, não precisa necessariamente presentar, plagiando o homem sem gravidade.
Opinião pseudo-pessoal: Muito afudê por explicar porque, para mim, não é tanto o sexo (diriam as feministas), a valorização do ego (diriam os críticos dos prazeres) ou o amor (diriam os românticos), relacionar-se com mulheres é a parte mais interessante da parada. Relacionar-se, com tudo que isso envolve, principalmente sentir a partir delas. E também me ajuda a pensar porque eu sempre erro em relação as minhas projeções de mulheres, no sentido de apostar que vou sentir ou não sentir algo em relação a alguém e acontecer, em regra, o inverso. Quero dizer, eu penso de forma estúpida que tenho como prever algo como se a outra pessoa não fosse interagir de forma fundamental comigo. E ainda me admiro quando me vejo sentindo algo inverso a minha primeira projeção. Dupla estupidez.
Diálogos: Revi árido-movie ontem. Puta sabedoria profana, diria Maffesoli - O ex-índio, agora nordestino fudido, fala assim - "Algumas coisas tem sentido... Outras não". Hehehe é só uma frase despejada num bar, que desvinculada de qualquer "vontade de sistema" expressa uma caralhada de coisas.
Diálogos 2: Cheguei bebaço e tava rolando noivo neurótico, noiva nervosa (ou algo do tipo) do woody allen. Enquanto eu degustava uma ponta pra não dormir, ele fala assim pra namorada: "Por quê essa porra de mania de psicanalizar os meus impulsos animalescos? Eu estou sentido vontade, não preciso citar ninguém pra tornar isso legítimo".
Diálogos 3: "deixarem-se desvairar". Não será isso que o Vinícius quer dizer no próprio samba da benção: "Um bom samba é uma forma de oração" ? Outra sabedoria profana que aparece pra algumas pessoas em um tom de obviedade que me mata de inveja. Porra, de certa forma, eu precisei APRENDER isso? Foda, né? Esse é um tipo de coisa tão humano que não apenas eu deveria compreender, deveria ter sido ensinado (ou "apresentado", pra aliviar o peso da palavra "ensinar") a canalizar muito antes:

"O que não sabemos ritualizar, tratar e gerir, acaba sempre por ressurgir, e de modo tanto mais violento quanto tenha sido duro e longamente negado". (Michel Maffesoli, A sombra de Dioniso, p. 85)

4 comentários:

  1. Acho que tocaste o ponto nevrálgico.
    Mulheres por demais alteridade ("Alteridade é mulher", dizia Levinas) para nossos esquemas racionais e conceituais.
    Raiz do desentendimento entre homens e mulheres? Mulher, para quem o cuidado precede o saber, mulher que cuida e é o cuidado que precede o saber e a inteligência. Mulheres que escapam ao conceito, cuja sensilidade exprapola o nosso racional e parece à flor-da-pele, sensibilidade que constitui a razão, e não o inverso.
    Homens, filhos de mulheres, não parecem o patético pensador tentando agarrar mais do que consegue com seus conceitos fechados?
    Mulher me remete a um sentido de alteridade pouco explorado: enigma.

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  2. Música do Chico, do último CD: "Penso que todos os passos perdidos são meus..."

    Renata Maria
    Chico Buarque
    Composição: Ivan Lins - Chico Buarque

    Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
    Tudo o que não era ela se desvaneceu
    Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês

    Pranchas coladas na crista das ondas, as ondas suspensas no ar
    Pássaros cristalizados no branco do céu
    E eu, atolado na areia, perdia meus pés

    Músicas imaginei
    Mas o assombro gelou
    Na minha boca as palavras que eu ia falar
    Nem uma brisa soprou
    Enquanto Renata Maria saía do mar

    Dia após dia na praia com olhos vazados de já não a ver
    Quieto como um pescador a juntar seus anzóis
    Ou como algum salva-vidas no banco dos réus

    Noite na praia deserta, deserta, deserta daquela mulher
    Praia repleta de rastros em mil direções
    Penso que todos os passos perdidos são meus

    Eu já sabia, meu Deus
    Tão fulgurante visão
    Não se produz duas vezes no mesmo lugar
    Mas que danado fui eu
    Enquanto Renata Maria saía do mar

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  3. "O feminino apresenta um mistério; não se deixa tornar objecto, permanece sempre outro, retirando- se para seu mistério; o mistério a que alude não se confunde com a concepção que os românticos tinham da mulher, os quais, emboram considerando a feminilidade como mistério, viam todavia a mulher como uma espécie de divindade. Para Levinas, o mistério do feminino encontra-se no seu modo de ser e no tipo de relação que permite.
    Este tipo de relação não é feito da luta ou da oposição das consciências “O modo de existir feminino é o de se esconder, e o facto de se esconder é precisamente o pudor. A alteridade do feminino também não consiste numa simples exterioridade do objeto, nem é feita de uma oposição de vontades. O outro não
    é um ser que encontramos, que nos ameaça ou que se quer apoderar de nós. O facto de ser refractário ao nosso poder não significa que seja uma potência maior do que a nossa. É a alteridade que faz toda sua potência. O seu mistério constitui a sua alteridade”. (NUNES, E. P. L. O outro e o rosto: problemas da alteridade em Emmanuel Levinas. Braga: Publicações da Faculdade de Filosofia, 1993 pp. 171-172)

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  4. Meta-filo-psico-sofia da condicao feminina de ser(-no-mundo)!

    Sou meio (psicologicamente) contrario a tendencias que ontologizam (para usar um termo "em moda"!) uma feminilidade (meio que equiparada a "sensibilidade") em si.

    Mas o texto traz uma beleza forte e contundente.

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