sexta-feira, 20 de junho de 2008

"Catástrofe e Representação": "A Vida é Bela" na "Central do Brasil" (!?)

Comentário de Salo de Carvalho sobre a degustação do filme "A Vida é Bela", do Benigni:
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Caro,
Gostaria de te indagar sobre a 'degustação' do filme do Begnini. Achas que a atitude do pai, de ocultar a dura realidade do nazismo do filho, merece ser saudada? Degustada? Maquiar o trágico e a violência seria a atitude ética e a postura pedagógica mais acertada no caso, transformando o holocausto em 'brincadeira', 'jogo', infantil? Lembro de outro filme, do mesmo ano, com personagem de mesmo nome. Lógico que não era o Josué italiano, envolto na tentativa do pai de sacá-lo da realidade, criando um mundo imaginário (metafísico?). O Josué que me refiro era um retirante brasileiro, do filme magnífico do Walter Salles com a participação maiúscula da Fernanda Montenegro. Nele, o garoto, apesar da idade, tem que enfrentar a dura realidade (dirias, trágica realidade) da miséria e da orfandade. Portanto, fico com a degustação de 'Central do Brasil'.
Abraço e parabéns pelo sítio.
Salo
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Diálogo:
Antes de mais nada, agradeço de coração pela oportunidade de dialogar contigo, Salo, nesse espaço recém criado e em permanente construção.
A primeira coisa que me saltou aos olhos no teu comentário foi a surpreendente falta de indicações de filmes brasileiros nas degustações do Blog. Ato gravíssimo que foi corrigido a tempo, principalmente porque muito me apetece o cinema brasileiro. Aliás, nada como ter tempo que possibilite de construções e re-construções sentidos.
Quanto à provocação, penso, sim, que o filme "A Vida é Bela", de Roberto Benigni, pode e deve ser degustado. Da mesma forma, merece degustação "Central do Brasil", de Walter Salles.
Uma leitura trágica em relação ao filme brasileiro pode ser feita levando em consideração os argumentos que bem trouxeste, tais como fatalidade dos fatos e amor fati. Por outro lado, não posso olvidar a esperança de Josué, nem a dimensão de solução (felicidade, dirias) encontrada (por que é uma busca) por, mas também para Josué. Características, essas últimas, que poderiam afastar a interpretação trágica do filme. Mas a questão é que não se trata de espancar o que sobra para deixar redondo o filme e, assim, poder colocá-lo sob o rótulo binário (e aí Totalitário) do trágico e/ou do não-trágico. Quero dizer, o trágico não pode ser "o" modelo de leitura do mundo, e isso sabemos, pois, afinal, é de perspectivismo que Nietzsche fala. Parece-me, então, que "Central do Brasil" não é uma tragédia, apesar das aproximações trágicas - mas, principalmente, que pouco importa se representa ou não esse gênero filosófico-literário.
Bueno, "A Vida é Bela" tampouco é uma tragédia. Perece-me, sim, que há uma dimensão infantil de enxergar a realidade da Shoah, mas isso não é a mesma coisa do que uma dimensão infantilizada daquela catástrofe. E por aí é que estou saboreando o filme do diretor italiano, pois, é no encontro do excesso de realidade da Shoah com o sublime estético e o trauma psicanalítico que irrompe a impossibilidade da representação e do discernimento entre real e irreal - dando chance de pensar "o que resta de 'verdade' diante do peso esmagador da realidade de Auschwitz? Ou, invertendo a questão: existiria alguma outra verdade para quem passou por essa experiência?" Essa catástrofe, essa hiper-realidade, por isso, não pode ser imaginada "a não ser elaborando e trabalhando-a, colocando-a em perspectiva". Em outras palavras não-minhas: "representar ou não representar: isto não altera, afinal, a consciência do que precisa ser dito. 'O irrepresentável existe' (Lyotard)". Aliás, se é irrepresentável, como exigir que aquele que não tem palavras para significar gazeificação de pessoas represente essa realidade para o filho?
  • Todas as citações são de "Apresentação" e "História como Trauma", presentes no livro Catástrofe e Representação, organizado por Arthur Nestrovski e Márcio Seligman-Silva.

3 comentários:

  1. DIABOS.

    PENA CRUEL para os amigos que criam grandes blogs e NAO AVISAM a IRMANDADE

    (comentario posto simultaneamente no "Tunel no fim da Luz")

    PS: Linkei, obvio

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  2. pois é, uma questão dura de se resolver.

    não será "a vida é bela" uma grande ironia? Uma espécie de sopro de humanidade dentro do que houve de mais desumano?

    Já viste o filme "Filhos da Esperança"? É um dos meus preferidos dos últimos tempos, ao lado de Crash, Dogville e A Vida dos Outros. Ali tem uma cena mais ou menos semelhante, quando um bebê atravessa um campo de guerra. Parece ser o pingo de esperança, de humanidade, que se renova em meio ao trágico que tudo rodeia -- a roda do tempo que não pára, e por isso a esperança nunca morre, para a dor do conservador.

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  3. O Giosuè de Benigni: infantil, entre o medo e o sonho, como "toda" criança; o Josué da Central, quer dizer, do Centro do Brasil: sem idade e com todas elas, entre a poeira e a lágrima ardida. Abração e parabéns pelo blog,
    Ricardo.-

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