Quando Metáfora se deu conta já não estava mais no Circo, de modo que ele não importunava mais seus inquietos pensamentos. Agora só lhe restava esperar aquele próximo momento em que, à flor da pele, escorreriam poucas lágrimas; de dor, de excitação, de vergonha... Nada que pudesse indicar a mínima parcela do que sentia. Realmente nem Circo nem Platéia poderiam ajudá-la; tampouco haviam conseguido suportar o abuso da razão há instantes proporcionado pelo frenesi metafórico. Ora, já haviam lido Kafka, Beckett, Saramago, Shakespeare, Dürrenmatt, e concordavam, à Camus, que é sempre cômodo ser lógico mas quase impossível sê-lo a fundo; um pouco antes de verem o filme que deflorou e deflagrou a falta de sincronia da tríade, leram o conto "Carta de um Louco", de Guy de Maupassant: debateram, discutiram, conversaram, apontaram, encontraram-se e desencontraram-se, enfim, degustaram aquela literatura embriagante até chocarem-se com as belas figuras críticas que eram pintadas pelo "fantástico" autor que, aparentemente, conseguiam entender.
Duas opções de filmes: "Amores Brutos", do Iñárritu e "O Discreto Charme da Burguesia", do Buñuel. Ambos escolhidos com a paciência e o desejo necessários para encontrar a fragrância sensível das afinidades que acreditavam ter e, principalmente, buscavam apontar. Entre "qualquer-um" e "pode-ser", Metáfora optou por aquele que parecia de mais difícil leitura, ou melhor, de distâncias mais profundas entre o dito e os não-ditos: Buñuel. Sem esquecer o incenso e o vinho Circo, dono da casa, apagou também as luzes. Já tinham visto cerca de trinta e poucos minutos, quando Platéia pediu, com a aprovação dos demais, para iniciar novamente a reprodução, pois um "quê" de incomprreensão pairava na atmosfera esfumaçada da sala da TV. Realmente o filme exige atenção; não pode ser singelamente entendido por olhos neutros, desatentos ou acríticos, para não dizer burgueses. Ora, o charme é discreto e o momento mesmo em que começa a ferir, tal Prometeu e Abutre, o corpo todo dos espectadores, já não se consegue responder às perguntas sobre quando que isso começou, como se deu, qual a explicação. Figuras, imagens, cores, representações, todas desproporcionalmente impossíveis de serem capituladas pelo fetiche lógico da lógica-coerência.
Claudel, Calígula, Estamira, todos pretensamente entendidos por aqueles jovens admiradores das artes, ficaram desconhecidos frente a ininteligibilidade que opunha, agora, Metáfora contra Circo e Platéia. Tal como aquele quarto reformado que fala em ecos com seus usuários apenas para dizer que a realidade das diferenças é visceral com quem permite-se chocar a fundo, Metáfora já não suportava os tampões nos ouvidos dos amigos que, por sua vez, já tinham tolerado demasiado as imagens desagregadas e metafóricas que lhe irrompiam a íris. Não podiam mais esconder o ressentimento que essa tolerância projetava. Foi aí: discussão, gritos e ironias mal-entendidas...
Chegou em casa, tomou um pouco de vinho e escreveu. Essa foi a forma, e apenas por devaneios literários, que Metáfora conseguiu expressar a idiota sensação de mal-estar que vivenciara há pouco, na primeira aula do quinto semestre da faculdade, quando desejou debater questões críticas que permeavam a matéria e foi absolutamente vaiada pela platéia que se formou, transformando auditório em circo.
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Juremir disse hj no jornal (texto chamado Ensaio sobre a covardia) que o pior cego é o que vê demais.
ResponderExcluirQuem muito vê enxerga o rosto da apática e inseparável companheira Solidão. Sorte do cego que não percebe sua presença.