domingo, 9 de novembro de 2008

Encontro com a Sensibilidade e o Sorriso das Flores, ou: sensível felicidade da flor...

"Caro Doutor, eu me coloco em suas mãos", era o que pensava Entretanto. O Sol havia os encontrado. Não poderiam saber se estava realmente quente ou se o calor dos seus corpos é que afrontavam alquimicamente aquele outro real - que era a temperatura do dia. De qualquer maneira o ar condicionado estava ligado. Tal como uma flor que encontra seu admirado e lhe permite adimirá-la, seus olhos combinavam ardentemente com sua pele - era o que, extasiado, pensava Entretanto ao contemplar sua amada. O olhar de Felicidade conseguia resplander o enorme brilho da alegria de ambos, num arrebatador momento de singela completude. Até então não haviam tido a oportunidade de, por mais que quisessem, acreditar que era possível falar sem palavras. Pelo menos até o momento em que isso realmente aconteceu. Não tem como explicar - e isso não é retórica(!). Não tem mesmo como explicar; se naquele momento já não haviam palavras, como inxertá-las agora sem ferir absolutamente a magia(?!). Entre flores, peles e sensibilidades a conversa continuava até que, num átimo, Felicidade colocou os óculos escuros. Exposto diante do seu reflexo nas lentes pretas combinadas com astes prateadas, Entretanto estava defronte consigo e suas fraquezas. Inseguranças, defesas, mecanismos tomaram conta do silêncio que irrompeu diferente daquele outro silêncio confidente. Mil elucubrações, mil vestes, mil pensamentos, enfim, mil tonalidades de cinza entravam em cena para confrontarem-se com a bela blusa lilás que Felicidade usava. Para ela, talvez, o momento era ainda colorido. Talvez, sempre - e era nisso que ele pensava, era isso também que doía, ao continuar justificando, numa força incontrolável, a sua fraqueza: talvez o sempre seja mesmo um sempre talvez - e se isso não é angústia é, pelo menos, sua irmã, ou filha, ou mãe. Ora, Entretanto já não conseguia, ou não podia ou, ainda, não queria enxergar mais a felicidade da Felicidade, por mais que fosse só o que ela pretendia passar-lhe naquele instante. Violento, ele queria mais. Queria palavras. Sabia-se violento. Queria som, pois já não lhe bastava o que via e o que poderia estar vendo de invisível ou não estar vendo de visível. Queria ferir o momento delicado. Procurava segurança - a segurança chã, acre, burra, caolha, dos lógicos que tanto sofrem daquilo que Entretanto tanto se envaidece: a sensibilidade. Pensou em Carlos Drummond de Andrade - "em verdade temos medo...". Era como se não se permitisse degustar o que teria tantas e plenas condições de degustação: o momento mesmo em que desejava Felicidade e que sabia que ela chegava sorridente apenas para lhe piscar os belos olhos com um lindo sorriso. Impaciente, como odiava ser, Entretanto pediu que Felicidade tirasse os óculos, pois queria que ela atentasse ao que ele tinha para falar. Felicidade, aparentemente tranqüila e bela como aquele dia de Sol, respondeu acariciando-lhe as mãos, como que percebendo o frenesi alucinatório que irrompera há instantes seu amado: "eu não preciso tirar meus óculos pra te escutar". Claro, ou lilás, no mínimo simples: ela poderia muito bem escutar sem ver, ver sem escutar, ou, o que é mais sorridente, poderia até, escutar sem ouvir, enxergar sem ver - afinal de contas, tocava em suas mãos. Certo que ela não usou exatamente essas palavras; afinal, como ele poderia lembrar-se exatamente de algo diante daquele rubor (?!); de qualquer modo, foi nessa sintonia que ele compreendeu o que compreendeu, e sobre a qual reconstruiu sua realidade; sua, nem sempre saudável, alucinação.
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3 comentários:

  1. havia tempo que eu não acessava o blog! Gostei de ler! Hj irmão!

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  2. Lindo o Texto, Juriká! Fiquei pensando que, talvez, Felicidade não tenha querido tirar os óculos escuros como forma de encobrir sua sensibilidade, sua insegurança e, por que não, em certa medida, sua violência...

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  3. Curti muito velho, esse teto do toque é extremamente carnal, humano. Eu DETESTO e AMO que encostem em mim.

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