quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O Reino da Mentira e o Estatuto do Delírio, ou: o impossível quadro narrado...

Para Ricardo Timm de Souza
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O relógio estava de costas. Mas isso não indicava, por incrível que pareça, que o tempo estava paralisado. Há sempre uma distância entre o por-do-sol e o pôr-do-Sol. Intocável distância sensível: barreira intransponível para sermos o Sol mesmo. Como aquele mestre palestrante que enche sua mesa ou seu púlpito de livros para proteger-se, blindar-se, à melancolia do encontro, do aparecimento, do perecimento, das roucas vozes emudecidas que não estão naqueles livros que o protegem. Ou, como aquele outro grande jurista que brinca de teatro e ironiza o mundo sem se dar conta que teatro mesmo é o que ele representa, rindo, cuja graça não é comédia senão dos falsos risos falsos. Tautológico? Sim. Tautofônico, Tautometria, Tautócrono, de cuja suruba nasceu Vergonha – aquela menina bela e homossexual que precocemente tornou-se Pensamento. Ora, a capacidade do artista é a condição de fuga em direção à Metáfora – a maior paixão das não correspondidas Palavras, meninas rudes que teimam em crer que não são um eterno também. Assim como um relógio de costas a metáfora é a condição de possibilidade de contar outra história por trás do que se pinta, borda, esculpe, conta, encena... Nessa fenda o relógio está distorcido e, por mais impressionante, os sapatos se confundem com os pés como metáfora do homem que se confunde com o carro. Uma tela não é uma tela – não é senão uma história (à contrapelo), uma narração que pede, por vezes, o relógio de costas. Mas pede também, nas outras vezes, o relógio de cabeça-pra-baixo, porque o importante, na maioria das vezes, não é o relógio, mas aquilo que ele deixa escapar de sulco temporal. Como o inacessível por-do-sol.
Bueno, já entendeste, não é?! Claro, não posso negar, isso era realmente para ser um quadro – se eu soubesse pintar.

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3 comentários:

  1. Metáfora: Tropo que consiste na transferência de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa, e que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado; translação. De certa forma, a sanidade se situa entre o extremo de aprisionar obsessivamente a linguagem em um cerrado âmbito semâtico e o extremo de bagunçar os âmbitos semânticos a ponto de des-significar todas as palavra. O curioso é que os analíticos são consagrados por atingirem o primeiro dos extremos por sua con-sagrada sanidade, enquanto os artistas atingem o outro extremo e são con-sagrados in-sanos. É que, no caso, o âmbito semântico do relógio é tão mais con-sagrado (o que não é uma metáfora? A VERDADE?)quanto permanecer no âmbito semântico sacralizado ("18:00, horário de brasília"). O que está "ressentido" é que brasília é só uma metáfora, do analítico. Existiria melhor ansiolítico?

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  2. Acho que não deveriam ser degustações, pois estas se consomem e se perdem, se diluem e se misturam dentro da gente de maneira sutil e discreta.Acho que pertinente seriam se fossem pílulas. Para a cura. Deste mundo caótico. Destas pessoas insanas. Ou, destes simulacros de loucos que, em sendo mesmo mau caráter, escondem-se por trás de títulos.Pílulas para nos amenizar da dor destes mestres em seus "estradinhos", em frente ao quadro branco, que nos satirizam quando ousamos questionar a sandice em que eles vivem.Pílulas para nos entorpecer, para nos permitir aceitar com menos rebeldia o grande mestre que prega o dogma com a palavra nas mãos. Por favor, me dá as pílulas para eu dormir de olhos abertos e fingir que eu não os vejo loucos, não os ouço mentirosos e não os acredito cínicos. Para que eles [mesmo não me aceitando] não tentem me destruir...Para que eles não me dopem com as [suas] pílulas e me façam ser [não] pensante.... E que não me perdoem, pois eu não quero crer no que eles dizem....
    Sinta-se à vontade para ministrar as suas dosagens! À pedido... Bjks, querido!

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  3. Pode ser que haja um dia que todos estejam (estejamos) mas preocupados com o SULCO do que com acertar os ponteiros com Greenwich ou Brasilia. Bom seria (vai ser).

    O problema esta no fato de que, embora nao unicos no mundo, os ponteiros seguem girando...RODANDO. E, voce, sabe: roda mundo, Roda-Gigante, roda moinho e a roda viva, SE BOBEAR, nos CARREGA para (tenho medo de pensar pra onde).

    EXCELENTE texto!

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