Apunhalado saia com certa pressa da sua festa. Era a comemoração por um falso dia de nascimento, mas que contagiava inumanamente grande parte da humanidade - claro, devo alertar o leitor de ante-mão, trata-se do velho e grande problema do espelho. A correria que desejava imprimir derivava, por estranho que pareça, exatamente da impossibilidade de reparar - trata-se exatamente daquilo que está no no já-dito, mas que nunca esteve no jardim. De qualquer maneira, Apunhalado deveria levar Irmão, seu verdadeiro irmão, para outra festa antes de dirigir-se à casa de Namorada, sua namorada. Os locais eram bem distantes e o relógio incansável, mas o que se passou jamais poderia ter sido previsto, apesar da angústia apunhalando-o - afinal de contas, os variados encontros tinham incompreensivelmente que significar alguma coisa. O clima era para estar confraternizado - mas isso também faz parte da mentira, o leitor muito bem sabe. Ora, tão logo Apunhlado entrou no automóvel tranformou-se em máquina - movimentava-se, pensava, mas não confraternizava. Não fosse impossível seria certamente culpado. Atingira uma velocidade relativamente rápida, mas o ensinado zelo fazia-lhe olhar constantemente pelos espelhos retrovisores. Foi justamente naquele segundo - já acumulado de emoções não desabrochadas, verdadeiramente reprimidas - que o cachorro morreu. Absolutamente não o vira. Tampouco Irmão teve tempo de avisá-lo. Sim, meu caro Senhor, foi um choque. Uma avalanche de emoções. Para falar a verdade foram lágrimas. Literalmente a queda - que explicava, inclusive, o mito do dia. Pesadamente deixou Irmão na festa e, mais do que antes, precisava dividir a dor que o apunhalava com Namorada. Ambos, Irmão e Namorada, tentaram de forma sensível sopesar a violência - exculpavam-no numa bela interação que poderia realmente ter valido contra toda a ausentemente presente comemoração universal. Não adiantava, cinza como a solidão, qualquer justificativa era amarga; tendo em vista a maneira como se apresentava, não poderia não ter esse gosto: circular e racionalmente infinito. O choque, porém, explodiu sua força: o limite apresentou-se como uma outridade impensável. Não há saída. Morrer como um cão não é o mesmo que morrer como um homem. No entanto, algo os identifica: a morte, o assassinato, o limite.
Mas isso serve para, esfarelada e caninamente, justificar a punhalada.
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Bah, muito interessante a forma sentimental da escrita. Senti como se fosse verdade, quero dizer.
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