A culpa era das mães. Naquela pequena e distante Vila muitas pessoas preferiam caminhar pelas ruas. Gostavam da noite. Seria uma cultura milenar se ainda não faltassem seissentos anos para aquela sociedade poder comemorar seus mil anos - de invenção. De qualquer maneira, já faziam algumas décadas que alguns viventes preferiam degustar a cidade longe da iluminação solar. Caminhavam por vielas e até ruas principais. Gostavam de caminhar. Conheciam bem a Vila. Não gostavam mesmo de caminhar durante o dia. Foi por um triz que esse acontecimento não foi culturalizado. Bom, quanto à degustação, posso dizer que os mais idosos já podiam contar histórias aos seus netinhos sobre suas observações à meia luz. Enquanto isso, porém, a massa ainda usava a noite para festas, bebidas, drogas e o precário e malamado rock and roll - esse bloco individualizado conhecido utilitariamente como "massa" passava, assim, intranquila e penetrantemente por aqueles caminhantes noturnos praticamente sem notá-los; vez que outra ameaçavam atropelá-los - apenas para zoar com o amigo caroneiro, pois não seriam loucos de amassar o carro ou, quem sabe, sujá-lo com restos de restos verdes. Pois é, um detalhe muito instigante e indecifrável: essas pessoas que perambulavam nas noites desconhecidas, diferentes, exóticas, enfim, verdes, não enxergavam a Vila da mesma maneira que os habituais transuentes ensolarados e anoitecidamente entorpecidos. Por incrível que pareça, esses eram, claros ou escuros, cor de pele, enquanto os caminhantes sem caminho teimavam em sustentar aquela aparência esverdeada e pequena, em cuja cabeça continham inúmeros olhos, mas que não possuiam umbigo. Ora, apesar disso eram pessoas boas, pois apenas andavam. Conheciam a cidade com as pupilas dilatadas - as mães assim ensinaram. Claro que não são assim -mas não há como olvidar ou recalcar o ensinamento. Da mesma forma que não há como subestimar a claridade do dia. Mais precisamente: aquela luz do Sol do meio dia proporcionada pelo dedicado e delicado horário de verão é sempre muito reluzente.
Era apenas uma Vila. Eram, no mínimo, duas vilas. Quem sabe seriam três: a do nó, a da gravata e a dos nós de gravata - de cujo triedro refletia ainda a quarta vila: a dos nós na garganta. Todas infinitamente justificáveis, dialéticas, absolutas, violentas, totalitárias, pensadas e pesadas. E por isso infinitamente possíveis de serem pintadas: a paleta descansou enquanto o lápis trabalhou na mente do pintor - que era surdo.
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me deu nó na garganta e na gravata verde
ResponderExcluir"...teimavam em sustentar aquela aparência esverdeada e pequena, em cuja cabeça continham inúmeros olhos, mas que não possuiam umbigo."
ResponderExcluir(risos!)
Mto bonito, velho!
Abração!
O pensamento culpado? Não sei se a culpa é do pensamento, nem sei se CULPA seja algo que devamos levar conosco. Talvez a fonte da culpa seja o pensamento e, em conseqüência, a culpa seja a desgraça do pensamento. Não precisamos, afinal, de mais pensamento, de um pensamento infinito, que jamais esbarre em si mesmo e na sua imanência? Há pensamentos e pensamentos; o que nos interessa - o que é justo - é o pensamento que estraçalha a si mesmo.
ResponderExcluirJuriká,
ResponderExcluir“o pensamento culpado implora, o inocente se exalta”
No entanto, seguimos sendo incapazes de saber onde nasce o pensamento Culpado ou Inocente.
Ainda a tempo de te desejar...
Feliz ano 2M9 para ti e para os teus!..
[obrigada pelos belos e exatos comentários!]
(a)braços,flores,girassóis:)
:)
ResponderExcluirRelendo-te..
Uma feliz semana!...
(a)braços,flores,girassóis:)