Um menino sozinho em seu quarto pode imaginar uma grande rocha em forma de lençol no espaço onde se localiza o armário, ou mesmo onde fica a janela. Nada impede que enxergue também outras rochas; essas, além de maiores, ainda têm perigosas pontas, cujos formatos podem tanto apunhalar quanto proteger os pássaros que a rodeiam. Assim como o menino que pensa estar de costas para o mar contemplando a antiga e esfacelada torre, as aves também desejam as nuvens - desimportando o seu enigmático significado. O florescer da paisagem aparece irrenunciável ao pintor que, protegido pelo garoto, faz questão de retribuir: coloca-lhe fora do campo de vista a inescapável solidão vestida de branco-quase-cinza, cujos contornos arredontados não metem medo. Ora, as cores são preservadas, contidas, enevoadas; mas apenas porque o menino ainda brinca na areia - e se imagina marinheiro, admira-dor do mundo.
S. Dalí, "Paisagem com Elementos Enigmáticos", 1934.
O (des)pretender de um EXPLICAR atinge seu ponto maximo no titulo da obra: ao inves de denotar o oculto da manifestacao artistica, ou tentar denotar, existe o proprio admirar desse 'oculto'.
ResponderExcluirO QUE seria aquela representacao? Possivel ilustracao para ELEMENTOS que sao ENIGMATICOS.
Ps: apenas EU que PIREI nesse titulo ou realmente se trata de um dos nomes de obras mais fantastico de todos os tempos?
GD, obrigado pelo comentário. Confesso minha ansiedade na espera por algum comentário para essa postagem.
ResponderExcluirA brincadeira com a tela é, como notaste, antes uma narração-pseudo-surrealista do que uma explicação. Como se a tensão entre o real e o enigmático estivesse fervilhando latente na cabeça de uma criança que imagina a si como outra criança, pintada por alguém que ela também imagina, mas que ao imaginá-los remonta-se profundamente a si mesma enquanto imagem real de uma multiplicidade. É a própria compreensão do surrealismo enquanto algo profundamente enraizado no real e não mero delírio de real ou metarreal. O contrário de uma frase escrita ao inverso que é irrepresentável pela frase escrita em "ordem".
Tem uma baita frase do Benjamin: "De nada nos serve a tentativa patética ou fanática de apontar no enigmático o seu lado enigmático; só devassamos o mistério na medida em que o encontramos no cotidiano, graças a uma ótica dialética que vê o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano". (O Surrealismo: o último instantâneo da inteligência européia).
Obrigado pelo comentário.
Abraços
Bah baita post e baita diálogo o de vocês. O que ficou pra mim de tudo isso:
ResponderExcluirDizer que o surrealismo é realidade, não é realidade ou é o outro da realidade, equivale a dizer que o Cazuza ou é um hipócrita, ou comia a mãe dele no escuro, escondidinho do papai. Indiferente do quantum, o surrealismo compor a própria realidade já desmonta a idéia de que a mesma exista, absolutamente. Todo o mais (mas o quanto eu conheco da realidade? O devaneio é totalmente fora da realidade?) é insistir na classificação da realidade, como se o surrealismo-cotidiano fosse um enigma desvendável. E não admirá-lo, como mandou muito bem o Divan.