sexta-feira, 12 de junho de 2009

A profissão de fé na verdade é o medo do assalto que a verdade oferece ao irromper nas fendas, nas ranhuras, dessa fé. Assim, aqueles que mais furiosamente prefessam a verdade não podem esquivar-se àquilo que juram inofensivo: o temor de serem solapados pela verdade recalcada ante às suas profissões de fé. Eis, então, ironicamente, um dos enigmas da fé.
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terça-feira, 9 de junho de 2009

O tríptico (três painéis) de Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas, descreve a história do Mundo a partir da criação, apresentando o paraíso terrestre e o Inferno nas asas laterais. Ao centro aparece, curiosamente, um Bosch que celebra os prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimento de culpa. A obra expõe ainda símbolos e atividades sexuais com vividez. Especula-se sobre seus financiadores, que poderiam ser adeptos do amor livre, já que parece improvável que alguma igreja tradicional a tenha encomendado.
Ligada à "
utopia" por um lado, mas representando o lugar da vida humana por outro, Bosch revela uma actualidade do seu tempo, dado que essa vida está entre o paraíso e o inferno como se conta no Génesis. O tríptico, quando fechado, tem uma citação transcrita desse livro "Ele mesmo ordenou e tudo foi criado". Entre o bem e o mal está o pecado, preposição cristã. No jardim, painel central, representações da luxúria, mensagem de fragilidade nas envolvências do vidro e das flores, reflectem um carácter efémero da vida, passagem etérea do gozo, do prazer.
Enquanto "utopia", porque transcreve de modo imaginário na imagem um "real", que mais se aproxima do surreal, e representa, mesmo que toda a sociedade e a cultura Ocidental esteja marcada por essa estrutura, uma história “utópica” do seu tempo. Entre um “bem” e um “mal” está a vida e o pecado, de certo foi aplicado, mas no início seria apenas uma projecção.

terça-feira, 2 de junho de 2009

As sombras da razão

Uma sombra até pode esconder um vazio. Mesmo quando o vazio está cheio de algo. Mas para ser sombra ela precisa de luz, de Sol ou coisa parecida. Bom, o Sol é a mais utilizada metáfora para falar de racionalização, iluminismo, etc. Para dizer o mínimo, isso é bizarro. Ou não perece terrível dizer "tão claro como a luz do Sol do meio dia"? - Sim, podes rir... - Essa instrumentalização do que deveria ser por excelência inistrumentalizavel é, para dizer o máximo, burra. Aliás, coitados dos burros - os animais não-humanos. Nas intermitências do Sol Francisco de Goya fez irromper as sombras, atacou os lógicos santos do ofício e do estado - esses burros, para dizer o mínimo. Talvez vermes seja o adjetivo máximo nesse caso, mas ainda temo por estes. Apreender o Sol para que a apreensão se torne causa e efeito do apreendedor é movimento propriamente iluminado - é um delírio, para dizer o mínimo. Substituindo apreendedor por "empreendedor" não causaria ainda mais dano às sombras, nem ao Sol. Incrivelmente, porém, a violência desse empreendimento, para dizer, talvez, o máximo, ainda pode ser apresentada em cenas ensolaradas e cruas, sombrias e estupradas, cinzas e reais. Foi assim que vi quatro bons filmes nesse final de semana chuvoso e frio - tal como a razão, para dizer o mínimo.
Histórias Proibidas (Todd Solondz), Felicidade (Todd Solondz), Foi Apenas um Sonho (Sam Mendes) e Sombras de Goya (Milos Forman) são sombras ao sol delirante da razão, que mostram todos os algos que insistem em não se deixar sombrear por esse filete de pensamento que é a racionalização.