"Quem madruga sempre encontra/ Januária na janela/ Mesmo o Sol quando desponta/ Logo aponta os lábios dela..." entoa Chico Buarque a fatalidade da espera. Ora, quem "madruga", espera... E, o que espera quem espera? Estragon e Vladimir, esperam Godot: Estragon: "Sou infeliz" - Vladimir: "Não brinque! Faz tempo?" - Estragon: "Tinha esquecido." Bom, "a felicidade é uma coisa boa/ E tão delicada também", disseram, ao seu tempo, Vinícius e Tom... Imputaram também a necessidade do vento, e, assim, da chuva, do Sol, da tempestade, da Lua, do orvalho... Bueno, a felicidade é uma coisa louca e complicada também... Seria ilusório crer que quem espera o inverno também tem a esperança de que, no império do frio, aquela mínima sensação de calor possa lembrar o corpo ardendo da amada? Quanto Sol há entre Argel e Paris... Aliás, quanto de Camus há no meu Sol?? Quanto Sol aquece o quarto de Januária, penetrando pela sua janela aberta - que é a janela aberta do seu coração, cuja porta há tempos está destrancada, também na espera de que entre intenção e gesto, os admiradores lhe firam com palavras sempre metafóricas... É, Godot!?! Estás entregue à máquina de tortura que vai te tatuar esperança e depois te matar, não sem antes deixar que tu mordas um tampão de feltro... pois, claro(!), os gritos não podem atrapalhar os ordeiros que não sabem esperar pela sua vez de sentir o rastelo. O senhor também espera, Godot! Espera, talvez, por Januária, "Que malvada de penteia/ E [só] não escuta quem apela..." Justamente, "quem espera nunca alcança"(!); quem espera, espera... enquanto preenche o vazio com coisas que se dá conta e com outras que não lhe seriam possível enxergar... Não pense que há categorias de espera, a espera é incategorizável, indizível... A espera e sua amante, a esperança, nem sempre viveram um romance tranqüilo. Ora, a proximidade e a comungação de idéias nem sempre é uma boa - estavam aí, nas ilusões mito-lógicas na nossa realidade, para demonstrar isso, Apolo e Dioníso, cuja aparente oposição não lhes permitiu brigarem pelo Sol, que afinal era o próprio Apolo, mas que não poderia ser apenas ele, visto que o Sol é muito mais que um conceito, muito mais do que uma representação... O êxtase, o afã, a loucura dionisíaca também dependem do Sol, dependem de que ele não cesse de existir; espera, por isso, que o tempo não pare. Doudo, perguntou-me o são (vestido de branco), a esperança não é a negação da vida? Pipe, repondi citando, alucinadamente, "uma esperança tremenda faz-se ouvir do nascimento da tragédia" (F. Nietzsche), pois na sombra que caricatura os restos, encontram-se diferença e tempo. Filosofia da tragédia, talvez. Mas só poderá sê-la ante o Sol, pois esperança constitui vida e a temporalidade aceita as diferenças a cada manhã ensolarada, inclusive nublada... Afinal, Merseault, porque mataste o personagem sem nome e conhecido apenas como Árabe? - Por causa do Sol...