quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Esquizofrenia Culta e Cultuada: ou, sobre retrovisores e recantos...

Entretanto já brincava com seus amigos em casa quando recebeu a notícia: Borboleta havia conseguido convercer os pais que poderia ir ao encontro; afinal, seria a única menina naquele dia. Entretanto tinha 15 anos e divertia-se muito com o videogame, mas ficava mais feliz quando recebia notícias assim tão boas. No meio daquele barulho que os grupos de amigos sabem fazer quando se reúnem sob tantas coisas em comum, Norma, sua mãe, ajudava nas gargalhadas e aproveitava para "cuidar-bem" o que diziam e de que forma gesticulavam aqueles meninos. Dr. Espartilho, desembargador aposentado, orgulho das filhas e da esposa, assim como outrora fora a vaidade, a jóia dos pais, admirava com um sorriso estonteante a felicidade que pôde oferecer para seu netinho e aqueles seus amigos. O dia ensolarado de inverno já havia proporcionado a roda de chimarrão e um licorzinho italiano ao final da tarde, quando as orelhas de Norma sentiram as vibrações de assunto "escondido": entrou na grande sala com copos de leite achocolatado para todos perguntando como estavam servidos e de imediato afirmando: "para não precisar colar, antecipem-se ao tempo de pensar isso e estudem; ora, colar não é certo e por isso não deve ser feito". Afinal de contas, já deveriam inclusive estar estudando para o vestibular; claro que não sem antes definir o curso. Dr. Espartilho sentiu-se, digamos, apertado, mas nada falou. Todos os garotos num frenesi amontodado de choque, surpresa e humihação ficaram de cabeças baixas, um pouco retraídos, propriamente acasulados; mas, justamente a melhor amiga de Entretanto, Borboleta, não conteve-se e teve que proferir, para a gargalhada dos amigos e inclusive do idoso Dr. Espartilho: "Quem não cola não sai da escola"...

Nem duas semanas haviam se passado e Dr. Espartilho deixava o neto Entretanto em casa (após terem saído para almoçar) e dirigia-se para um encontro de amigos no clube. Era sábado. A semana havia sido movimentada nas páginas jurídicas, pricipalmente a respeito dos (equivocados-)frequëntes-usos de jurisprudências, e ele queria saber a opinião dos seus colegas sobre essa complexa questão. Para sua surpresa, a assunto que tanto esparava debater só foi colocado em pauta no final da tarde; trocaram opiniões, sutis provocações e muitos chutes "desculpados" por baixo da mesa. Bom, no meio de tanto "respeito" e cordialidade, surge uma voz ridícula, inaudível a tarde inteira, mas tão risível que se fosse um rosto, talvez ganhasse contornos de um Palhaço:
"Essa história de jurisprudência é a melhor e maior cola que existe. Chega a ser absurda sua autolegitimação. Sua lógica de sustentação não poderia sobreviver ao mínimo contato com a realidade chocante que, paradoxalmente, ela pretende representar. A sua própria existência impede a sutil possibilidade de ouvir novos argumentos, criados justamente por aqueles que devem argumentar e nada mais que argumentar. Isto é, não dá voz para aquele que (diariamente) mais (se) convence de que pode e deve falar. A sua utilzação representa um esclarecido imaginário alucinatório, cuja formação fundamental se dá pela negação das diferenças, não havendo chance para a necessária dimensão da novidade aparecer: nega a própria possibilidade da justiça enquanto afirma o seu mero fetiche - com a sua afirmação só pode negar vida àquilo em que pretende se ancorar, a saber, a justiça. Claro, é uma questão profundamente ética. Bueno, mas se quem não cola não sai da escola... ainda há chances do direito entrar na faculdade..."
Dr. Palhoça terminou de falar e o Dr. Espartilho sentiu um aperto, depois começou a rir. Riu tanto que acordou sua esposa. Assustada ela queria saber o que ele fazia aquela hora no quintal de casa com os cachorros... Ora, já passavam das duas horas da manhã. Dando-se conta da falta de percepção da mulher, Dr. espartilho refugiou-se no seu refugo; pensou que não iria tentar contar mais uma vez para aquela senhora o que estava se passando naquela situação de extrema complexidade, pois todas as vezes que o fazia era tratado como louco, para não cair no desgosto moral de pensar que lhe tratavam como mentiroso.
Bom, Dr. Espartilho foi deitar-se. Paraceu-lhe naquela hora que o dia passara muito rápido. A Lua já se apresentava brilhante sem ele ter se dado conta. No dia seguinte ele acordou e quis almoçar com o neto.
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8 comentários:

  1. Será que a Borboleta seria assunto no almoço do Entretanto e do Espartilho?

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  2. É que a 'Dona Norma' não compreende o sorriso... falta sintonia.

    Ou talvez ela seja do tipo catatônica.

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  3. VAI TIRAR ESSA BOINA, E NÃO ESQUECE MAIS DE LEVAR O CACHIMBO AO CINEMA.

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  4. O fundamento místico da autoridade, da jurisprudência, alimentado pela própria ... jurisprudência...

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  5. JURISPRUDENCIA como COLA.

    URGE que isso seja publicado na CONSULEX para os nefelibatas ficarem enfezados!!

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  6. BAH! Chorei no cantinho! Publicação já!

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Deguste e devaneie...