quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Esgotamentos... ou: e, e, e...

Há dias, realmente, que as portas parecem menores do que quem as enxerga. Talvez porque as vezes a realidade excede e transborda a capacidade que, eventualmente, a mente tem em comandá-la. Por isso mesmo outras vezes as portas são maiores do que o visível aparentemente. Ora, em relação à isso edificam-se teorias, construções sociais mirbolantes, análises (sempre) universalizáveis. Contemporaneamente, coexistem raves e festas de debutantes, jogos de futebol e massacres em trensurbes - isso significa algo! Significa sempre - e muitos pensadores creem que isso é a própria beleza desse momento histórico jamais percebido na humanidade. Maravilhosa possibilidade de poder conviver com a diversidade, com a diferença, com gritos, vaias e aplausos... tudo junto, claro (ou seria esclarecido?!). É exatamente sobre isso que eu tenho conversado ultimamente com meus amigos Mayora (http://tunelnofimdaluz.blogspot.com/) e Zé (http://sopademoscas.blogspot.com/). Opiniões, sempre. Beleza.
A visibilidade de uns serve à invisibilidade de outros, afirmou em "Cabeça de Porco" L. E. Soares. Boa idéia pra desenvolver paralelamente que a visibilidade de algo serve à invisibilidade de muitos outros algos. Invisibilidade sempre eventual, parcial e precariamente visível para enxergar o que de alguma maneira já está inscrito no olhar mesmo daquele que pode se sentir ora maior, ora menor que a porta. Ora, das boas leituras que compartilho, escutando e lendo o que sinceros e otimistas pensadores da cultura têm a dizer, percebo que há um festejo - apenas agora entendido - em relação ao que lhes é percebido aos sentidos (incusive o sexto, o sétimo e os subseqüentes). Pessoas brincando de madrugada, pulando em cavernas, estudando às escondidas e etc, são sempre - porque sempre podem ser - festejos. É claro que a palavra não é à toa e que eu não poderia me furtar à correspondência legítima: Festejo da Totalidade (R. Timm). Parece, então, que o resto, a herança, as migalhas da catásrofe, são comemoradadas como sendo a vitória mesma do tribalismo, do multiculturalismo, da falsa alteridade, ao invés de ser lido como o mesmo da vitória ou a vitória do mesmo, do esclarecido, do logos, da violência, do individualismo proto-diversificado - filho do que a indústria cultural representa - em cuja lógica também é necessário universalizar, virtualilzar, aparencializar.
Perece, então, que a crença de estar em muitos lugares, de participar de muitos grupos/tribos/famílias, de "aceitar" a diversidade, representa a própria falácia do que é afirmado/inflingido/imposto ao que importa, de maneira que a alucinação impede de perceber que há mais do que ar no vazio, há o próprio pensamento de quem pensa o vazio, no mínimo - e isso indica que não é possível viver e aceitar o vazio como se vazio fosse, apenas: simulacro de alteridade. Não há como eximir-se da responsabilidade quanto ao vazio ao mesmo tempo que criamos/contemplamos/significamos esse vazio. Vazio cheio de algo: algo que somos, isto é, violência!
Bueno, esfacelados diante das violências e dos recalques não creio que haja sentido real argumentar que, pelo fato de sermos violentos queremos/desejamos cada vez mais a diversidade, cada vez mais a companhia de outros, de momentos outros... Expiação?? Culpa?? Mas a promessa da contra-Promessa não era justamente livrar-nos da culpa? Ora, é sobre ela que Nietzsche funda sua crítica à moral - Schuld, é o termo alemão. É o que marca a filiação. Não há como escapar: movimento de totalização! Parece-me falacioso, alucinatório, e violento como qualquer máscara de redução de danos tende a ser.
Quero apenas dizer que somos ainda o final de uma Era das Catástrofes (Hobsbawm) e não o início de uma outra. Somos a ressaca da totalildade e não penso em outra palavra a não ser Esgotamento...
...

6 comentários:

  1. Concordo com o teu diagnóstico no seguinte sentido: vivendo na representação, consumimos a diferença representada, que não é a verdadeira experiência. Essa falta da experiência autêntica é que nós faz vazios (metaforicamente, pois estamos "cheios" de vazio - repleção de vazio). Isso sim pode ser traduzido como violência com o "resto" que fica de fora da festa do consumo. Mas não apenas com o resto. Consumimos nossa própria alteridade quando a empacotamos em forma de "identidades".
    Certamente faço uma leitura pessimista, mas não consigo não ser assim. O que não significa que não tenha esperança e que ela não esteja absolutamente ao alcance da mão.

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  2. Juriká,

    Deus! Fulminaste-me com tua velocidade de raciocínio.

    Mas...perante o meu olhar vago, ligeiramente céptico, levemente paradigmático teu texto criativo, me manifestada uma livre expressão como poema.

    *******

    Tem espinho o nosso nada
    mas falta aroma
    de pétalas peroladas
    de flores suspiradas
    tem espinho o nosso vazio
    mas falta preenche-lo
    com a beleza
    de talos entusiasmado
    de cores e esperança.

    [obrigada pela leitura, certeira].


    (a)braços,flores,girassóis :)

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  3. Há algum tempo atrás, perguntaram para a Ex Desembargadora Maria Berenice Dias, quando do concurso para juíza: és virgem? Minha vó não vive a vida vazia que vivo, ela acredita em Deus e nos padres. Também acredita no meu vô, e no casamento, e, por isso, nunca se importou com as amantes...A vida é dela é cheia de sentido, de realidade, talvez... É mesmo? De minha parte, acho um "progresso considerável" o fato de que o céu está vazio, não só de Deus, mas de ideologias, de certezas, de promessas, de prescrições. Ausência de gravidade. É claro que essas situações trazem novos problemas, mas, se não é melhor, ao menos é mais divertido fundar a economia psíquica no gozo, ao invés de fundar no recalque. De fato, os divãs estão cheios. Que bom, antes os confessionários estavam cheios.
    Posso estar completamente enganado, mas não consigo ver onde está a "verdadeira experiência", em contraposição à "experiência ilusória", ou "hiper-real". De qualquer forma, se um dia existiu a tal de "verdadeira experiência", creio que ficou no passado, junto com os juízes que perguntaram pra candidata à juiza se ela era virgem...
    Colacionarei lá na sopa de moscas, e um grande abraço a todos, vocês são foda!

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  4. DOCARALHO, fiquei uma CARA pensando e tive que escrever, pra ter noção de como curti. Postei o que pensei.

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  5. Dos varios trechos animais, a HUMILHACAO COMEU feio nesse aqui:


    "Parece, então, que o resto, a herança, as migalhas da catásrofe, são comemoradadas como sendo a vitória mesma do tribalismo, do multiculturalismo, da falsa alteridade, ao invés de ser lido como o mesmo da vitória ou a vitória do mesmo, do esclarecido, do logos, da violência, do individualismo proto-diversificado - filho do que a indústria cultural representa - em cuja lógica também é necessário universalizar, virtualilzar, aparencializar"

    genial

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  6. interessante...

    http://www.arte-e-ponto.blogspot.com

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Deguste e devaneie...