segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Sobre Peso, Palavras, Encontros e Desencontros...

Mundo Interior

Quando Dor entrou em cena Patologia e Referência falavam justamente dela. Não mudaram de assunto. Nada disso seria necessário. Ao contrário, compartilharam com ela a lembrança de quando ainda era apenas Anestesia. Fique claro que em nenhum momento a conversa ganhou tons ofensivos. As três, filhas do mesmo pai, dialogavam de modo muito amigável e com absoluta tranqüilidade. De qualquer modo, parecia claro àqueles que eventualmente poderiam estar assistindo a conversa que a situação não poderia ficar assim. Foi o que aconteceu: irromperam recordações do passado; nada muito distante, mas que teve a força de fazer com que entrassem numa profunda melancolia conjunta. Já devia ter passado das sete horas da noite e como ainda estavam no inverno a Lua já brilhava sobre as suas cabeças. “Muito agradável,” pensou Referência, “se eu ainda fosse conhecida como Brincadeira;” mas não. Era justamente isso que a atormentava: já não era mais aquela menina doce e simpática que poderia serenamente amar estrelas e arco-íris. Agora, assim como a própria Lua, ela estava num lugar cheio de iluminação e sofria em pensar que não tinha mais luz própria, enquanto – de maneira inexplicável para ela – seus familiares e amigos ainda insistiam em atribuir-lhe o título astral de satélite belo e natural, a cuja força a própria Terra se curvava. Para ela, porém, isso era inacreditável. Irritava-a, inclusive. Sentia-se, então, paradoxalmente lunática. Ao ouvir os mudos pensamentos da irmã, Patologia debulhou-se em lágrimas. Por que, afinal de contas, já não era mais aquela guria alegre e atenta como antes? Não compreendia a razão da sua metamorfose. Para piorar sua situação, ninguém conseguia explicar onde haviam se escondido suas bolinhas preferidas e de cores tão vivas: uma era azul e laranja, a outra verde e rosa. Como se ainda pudesse ficar mais dolorido, nem as suas próprias irmãs queriam ajudá-la a procurar. Cogitou que elas poderiam ter realmente fugido – mas não sabia se deveria acreditar nas suas próprias construções; poderiam elas – as bolinhas – ter confiado que Patologia era realmente uma moça violenta? Isso se deve, certamente, aos óculos, pensou: identificou, como lhe era particular depois que deixou de ser reconhecida pelo nome Sanidade, feiúra, doença e maldade. Só assim conseguia explicar a fuga. Triste e tensa, Dor não conseguia suportar a crise da irmã, mas também não poderia ajudá-la. Era possível observar, apenas para quem atentasse bem à cena, que sobre o balanço do jardim havia um relógio – só depois apanhado pela dona, a menina Dor – que marcava horas dissonantes, de alguma forma já amargurada e acostumada. De modo muito estranho ela sorriu. As irmãs, inseguras, entendiam. Uma voz rouca, então, soou para o espanto das garotas. Reconhecendo a rouquidão e aliviadas pela proximidade do final, ainda tiveram que escutar o que Dia falava – daquela maneira euripidiana com que estavam acostumadas: “é demasiado dolorido e pesado perceber minha razão onipotente, minha vontade dominadora e moralista, cuja auto-referência violenta a si mesma diante da sua própria percepção”.
Ora, já era a última, senão penúltima cena. Caricatura havia se atrasado muito para o teatro – fato que o enraivecia e o angustiava. Teve tempo ainda de descobrir que tudo se passava no sonho do único personagem “verídico”: Frankenstein. E por mais que não tenha conseguido entender a peça, pensou que comprando o programa, à venda na bilheteria do Teatro, poderia suprir esta falta. Estava equivocado, mais uma vez.
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4 comentários:

  1. Talvez se Referência ainda fosse chamada Brincadeira eu poderia não rir se me dissessem que a Lua é exatamente aquilo que eu vejo quando o Sol a ilumina. A Dor de não saber nada da lua (tampouco acredito que os materiais recolhidos por aqueles bêbados fantasiados que foram ali queimar um baseado depois da festa do ridícÔlo acompanhados da cadelinha Laika seja "A" Lua) só pode ser Anestesiada com a Brincadeira de achar que o conhecimento que eu sei sobre a Terra é muito mais Solar do que o conhecimento dos astronautas e suas bandeirinhas colonizadoras (o que significaria para um Lunático uma bandeira solitária fincada na terra da lua? será que ele não invadiria a Propriedade? Será que ele mijaria ali?). Enquanto isso eu fico comprando os programas da peça em que eu atuo, o que não ajuda em nada, porque eles se Referem a outras Companhias de Teatro das quais eu não participo. Sem problemas, porque Alucinado eu continuo escrevendo o Programa sempre depois da minha atuação, o que prova que as cortinas ainda não se fecharam. Por isso, te pergunto: O Pai prefere a filha Anestesia sua irmã Dor? Ou ainda: Se uma morrer, a outra sobrevive? O Pai sobrevive?

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  2. "ou" sua irmã Dor, para CLAREAR as coisas :)

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  3. Zé, obrigado pela leitura e pela bela interpretação!!
    Cara, o pai é o Pai.

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  4. Vocês são loucos. Que bom. Nada melhor do que mijar ao ar livre, sob a luz do luar.

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