Lia manicômios e imaginava presídios, talvez por isso a tradução brasileira tenha sido tão feliz para o título do livro do Goffman. Por mais que se vincule ao modelo médico, a internação psiquiátrica trai pelo mesmo motivo que se afilia: "'Não está sendo feito comigo [o tratamento médico especializado] - só me deixam ficar sentado'. E a essa dificuldade corresponde o fato de que o atual tratamento psiquiátrico oficial para as perturbações funcionais não tem, em si mesmo, uma probabilidade de acerto suficientemente grande para justificar facilmente a prática de psiquiatria institucional como uma ocupação de serviço especializado - pois, como já foi sugerido, é positiva e elevada a probabilidade de qua a hospitalização prejudique as oportunidades de vida do paciente". A mera crença salvacionista deve dizer algo; ou antes, não há como não dizer outros algos além do que está dito. A racionalidade Única só se legitima com a sua própria veneração. Daí que manicômios, prisões e conventos sejam expressões do mesmo pensamento desejoso de uma verdade falsa.
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“A ideologia da doença e da saúde mental serve a uma necessidade moral, evidente e premente. Como a obrigação clássica do médico é tratar pacientes que sofrem, mas para isso obter o seu consentimento e só fazê-lo em seu benefício, é necessário explicar e justificar as situações em que os indivíduos são ‘tratados’ sem seu consentimento e em seu prejuízo. O conceito de doença mental ou insanidade atende a essa necessidade. Permite que os membros ‘sadios’ da sociedade lidem, como quiserem, com os seus semelhantes que são categorizados como ‘insanos’. Mas, depois de ter retirado do louco seu direito de julgar o que é melhor para ele, as pessoas – e sobretudo os psiquiatras e juízes, seus especialistas médicos e jurídicos em loucura – se livraram das coerções corretivas do diálogo. É em vão que o suposto louco afirma que não está doente; sua incapacidade para ‘reconhecer’ que está louco é considerada como sintoma da própria doença. Em vão rejeita tratamento e hospitalizações como formas de tortura e prisão; sua recusa a submeter-se à autoridade psiquiátrica é considerada como outro sinal de sua doença. Em sua rejeição médico do Outro como um louco, reconhecemos, e, roupagem semântica atual e técnica, mas de forma subjacente sem nenhuma mudança. Sua antiga rejeição como um herético”. (SZASZ, A Fabricação da Loucura, p. 16)
ResponderExcluirPor fim, cumpre lembrar que moderar comentários é coisa de boiola.
O objetivo final (cuidadosamente escondido) de toda Coerência é a Certeza. A Certeza veste branco e tem um caderninho onde ela te descreve sem erro, não importa o que seja dito. Porque o contraditório não é científico, escutei dia desses. O louco só pode ser louco, evidentemente. É a loucura dele o fundamento do atestado "louco", dizem os "sanitários".
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