A minha lista de filmes é sempre bastante diversificada. Posso dizer que de "comédia romântica" até o gênero "suspense", eu aprecio uma vasta possibilidade cinematográfica. Talvez o que me chame a atenção seja simplesmente "o que dá para pensar". Quero dizer, muitos filmes não têm condições para dar o que pensar; outros, também muitos, tocam-me de alguma maneira que, impossibilitado de elocubrar uma maneira geral sobre esse "porque", apenas me atrevo a dizer que me dão condições felizes de devaneio ou, de pensar.
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Parênteses: Sim, "maneira geral" talvez fosse substituível por "teoria geral". Mas ela me salvou, a bizarrice. Fecho o parênteses.
Parênteses ao quadrado: aliás, o que vem a ser "condições de pensar"? É engraçado. Talvez seja cômico como era "A Greve dos Sexos" para Aristófanes; com poderiam as mulheres meterem-se em assuntos políticos?, como poderiam as mulheres não mais proporcionar gozo sexual para seus homens? Mulheres de Atenas? Ora, talvez os filósofos não entendam nada de mulheres, para comediar com Nietzsche. Ou entendam tanto quanto entendem entender de pensamento. Aí a casca da banana: quando foi que alguém atribuiu/identificou à filosofia a resposta para a própria pergunta que (para ele mesmo) já é filosófica? Tradição, crítica, anticrítica, protocrítica, pós-crítica... tudo já é desvanecido: temem e tremem diante de um monumento que impunha feroz e estaticamente uma espada sobre um forte cavalo. Chico Buarque: tudo o que não era ela, se desvaneceu... Ora, como alguém pode acreditar que o pensar é já o pensar filosófico? Bom, o ralo é inapelável. Mas não parece um pouco macabro o fato de que o pensar reduzido ao logos seja eternamente autovenerador, autolegitimador, e que não deixe escapar nenhuma possibilidade de pensar fora do âmbito de si mesmo? - aquele âmbito que pode e tem condições de pensar, fora do qual o próprio pensamento é imitação? Devaneios a parte. Fecho o parênteses, circularizando-o.
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O Romance é um filme brasileiro, cujo roteiro é de Guel Arraes e Jorge Furtado. É uma leitura de Tristão e Isolda. Mas não é Tristão e Isolda. Sim, um brasileiro (que) não sabe filosofia(,) não poderia querer esgotar Tristão e Isolda. Ok, my Lord, digo my logos. O filme é bom e eu indico. Bons diálogos, bons personagens, bons viventes. Beleza. Não, não contarei o filme Eurípides, senhor amante de prólogos. Mas a lembrança de Medéia é uma bela possibilidade de diálogo com a principal cena do filme na minha opinião.
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Parênteses: a razão prega peças. Fecho parênteses.
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Enfim, tem um momento em que a atriz principal da película, que na película representa no teatro Isolda, diz para quem ela acradita ser o seu amor-em-pessoa: "Eu chorei tanto, mas tanto que quando levantei fui me olhar do espelho e já não sabia se eu chorava ou representava". Todo esse monte de letras amontoadas que usei para chegar até aqui e dizer: não parece falacioso quando alguém chora por uma dor indizível e esse choro não pode alcançar o que significa essa dor? O que representa representar um choro em frente ao espelho? Estar chorando por uma profunda dor e olhar-se no espelho não é sempre um choque com a própria impossibilidade de representar a "dor que deveras sente"?, para lembrar Fernando Pessoa. A expressão da dor pode, quase nunca, expressar a dor, foi o que degustei... A mentira do espelho: torna bizarra a dor pela inevitável hilariedade da metamorfose doravante encenada.
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Parênteses: sim, a frase da atriz não é exatamente essa. Fecha.
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Parece-me que tu defende uma nova forma "oficial" de apreensao cognitiva, deslocando a ELEITA apropriacao logocentrica do mundo.
ResponderExcluirNao sei se acho isso possivel, eis que pensar para mim, nao tem como vir apartado do logos.
Sentir, talvez?
Gracias pelo comentário GD.
ResponderExcluirCara, PENSO que a dor é irrepresentável pela sua condição limite em relação ao domínio e expressão do logos. Sim, uso palavras. Sim, uso a razão. Bom, "os pensamentos, embora possam parecer grandiosos, jamais serão grandes o suficiente para abarcar a generosa prodigalidade da experiência humana, muito menos para explicá-la" (Z. Bauman , "Amor Líquido"). Beleza, isso até pode ser corrente. Mas o que isso significa em termos de DESVINCULAÇÃO entre "pensar" e Filosofar é o que resta de DOR quando a pessoa pára de chorar em frente ao espelho porque o seu choro está eternamente condenado a ficar aquém do sofrimento.
Outra forma de se relacionar com as coisas? Sim, mas também acho utópico "um outro mundo possível". O pensamento condenado à Filosofia que se autolegitima deslegitimando o que não pode ser ela é a expressão da própria vilência do (doravente) Pensamento.
Sentir, talvez? Não sei. Estamos condenados!
Nota introdutória: esse papel de parede do blog meio vintage tá muito! engraçado, parece paredes de filmes antigos do Almodovar.
ResponderExcluirNão sei exatamente o que seria essa condenação, mas da forma com que entendi discordo. Acho, aliás, que essa desvinculação (que na verdade não é uma desvinculação entre sentir e pensar, mas uma desvinculação já do conceito positivado do que é sentir e pensar)é justamente o que não me condena a aceitar o que eu "apreendo", caso haja uma discordância a flor da pele, ainda que não apreensível. E será que é o choro que está aquém do sofrimento ou isso é uma consequência já da conceituação do chorar como uma careta molhada? É claro que aquela imagem no espelho é uma péssimissíssíma representação do que eu sinto. O meu rosto seca, mas eu sei que ainda estou chorando e sou capaz de perceber que não há vinculação entre umidade e sentimento. É que eu sou também a expressão do meu corpo, mas muito mais do que isso. É claro que o choro não totaliza a minha dor, mas choro e dor são coisas diferentes, que só algo como o pensamento redondo poderia igualar. Mas a desvinculação me salva, quando uma hora depois do rosto ter secado eu ainda sei que estou sofrendo. Condenação seria ser enganado por essa falibilidade conceitual que torna choro e dor a mesma coisa, não ter a consciência disso. (Fiquei tão contrariado com a palavra consciência ali em cima, totalmente equivocada, mentirosa e sem outra melhor pra representar, que retiro tudo o que eu disse e concordo contigo, porra estamos condenados!)E o pior é que se eu trocasse consciência por "sentimento disso", não ia mudar nada, porque eu estaria apenas usando outra palavra pra dizer que eu sei o que eu só sei nesta e naquela situação e ainda assim com um grau de certeza entre 3 e 5%. E o silêncio, representa melhor que a palavra?
Zé, valeu pelo comentário cara.
ResponderExcluirOntem eu escutava "...palavras, apenas/ palavras, pequenas/ palavras, ao vento...". No mesmo disco, a Cássia Eller ainda canta Piaf.
Pois é, a experiência da dor é, PENSO, irrepresentável, inatingível. E, note, isso já pode ser uma sentença. Isso já pode ter sido efeito do meu pensamento. Sim, aí "a casca da banana": quando qualquer coisa está fadada a sempre e eternamente entrar no MOINHO gigante da Razão; quando tudo é e será de modo inolvidável SUGADO pelo ra-lo autolegitimante, quase como numa conjunção-nada-carnal entre Razão e lógica - própria expressão da Filosofia enquanto um Monumento, assim como o são a História, o Direito e etc, usando aquela metáfora do Benjamin.
Sim, talvez isso seja uma confusão que faço entre filosofia e Filosofia (Institucional). Mas é possível negar a violência, a realidade e a força desse MOINHO institucional e autovenerador? Já não é um pouco macabro que um pensamento para não ser encarado como MERO devaneio deva passar por aquele RALO que se auto-atribui o PODER de estar "diante da lei", para usar o conto do Kafka?
Antes de mais nada, tenho pensado que a TRANSVALORAÇÃO é uma boa resposta. A psicánalise nesse sentido é importantíssima no meu entender. Sim, tem muito ressentimento aqui. Beleza.
Quanto ao silêncio, ele também representa. As vezes melhor que as palavras; outras vezes, porém, ele é apenas mais necessário, independentemente das boas palavras que no lugar dele se colocariam. O silêncio, assim como a quietude, PENSO, estão um pouco desprezados pelo menos desde que a importância MAIOR do Pensamento é a VINCULAÇÃO ao "famoso" LOCAL DE FALA, às expensas da beleza do que significa ter ouvidos, olhos, pelos... E isso não significa amordaçar... bom, mas aí já vira uma outra postagem.
O Silêncio
ResponderExcluir(Carlinhos Brown / Arnaldo Antunes)
antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor
Mas será que a "dor" do amor não está já dentro da linguagem e, como tal, do pensamento?
ResponderExcluirSerá que se fossemos apenas homo sapiens sapiens, como os animais não-humanos, sofreriamos pelo amor? Ou será que já estamos contaminados desde sempre pela prótese do pensamento e esse esforço do pensamento anti-pensamento não é um momento adiante, e não anterior (ou mais originário) que o próprio pensamento?
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. / Passou um homem depois e disse: /Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. / Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. / Era uma enseada./ Acho que o nome empobreceu a imagem (BARROS, Manoel. O Livro das Ignorãças)
ResponderExcluirTemos, todos que vivemos, / Uma vida que é vivida/ E outra vida que é pensada, / E a única vida que temos/ É essa que é dividida/ Entre a verdadeira e a errada. / Qual porém é a verdadeira/ E qual errada, ninguém/ Nos saberá explicar; / E vivemos de maneira/ Que a vida que a gente tem/ É a que tem que pensar (PESSOA, Fernando. Cancioneiro.)
Uma parte de mim/ é só vertigem: / outra parte, / linguagem. / Traduzir-se uma parte/ na outra parte/ -que é uma questão/ de vida ou morte-/ será arte? (GULLAR, Ferreira. Traduzir-se.)