Mais uma vez o Exame Nacional do Ensino Médio apresentou problemas na sua execução. Sendo uma proposta à educação e sendo proposta pelo governo federal, era de se esperar o descrédito e o ataque dos cidadãos conservadores, a fim de responder à derrota sofrida nas últimas eleições. As empresas de meios de comunicação de massa cumpriram seu papel em defesa da “educação” – o que é literalmente incrível, visto que a suas próprias mediocridades propagadas a todo instante só podem voltar-se contra o que significa educar. Agora, o argumento segundo o qual os vestibulandos perderam tempo estudando para o ENEM, e que este tempo não se recupera – ele é assombroso, porque nenhum tempo estudado é tempo perdido, e tampouco se poderia assim considerá-lo. Este argumento, entretanto, é incansavelmente recuperado em termos históricos; contra isso, o estudo – que é, pois, uma corrida a galope contra a tempestade, como bem escreveu W. Benjamin o propósito do décimo aniversário da morte da F. Kafka. Mas esse legítimo argumento de autoridade foi proferido por um cidadão senador vinculado ao partido conservador numa entrevista à Rádio Senado, transmitida nesta segunda-feira (dia 8/11) pelo jornal A Voz do Brasil – este que é já um ranço do totalitário. O vínculo técnico que o senador e seu partido perfazem para a manutenção da má educação já não consegue, todavia, esconder seu auspício de instrumentalizar o conhecimento, e é por isso que a plataforma do seu ex-canditado à presidência procurava criar um número x de vagas técnicas e mais técnicas – para quantificar o mercado, para neutralizar a crítica, a reflexão mesma. O que expressa também a sucção, cujo proceder é astuto, “vitorioso” – dialogando mais uma vez com W. Benjamin – e tudo isso é erigido em nome da “educação”. Educação? Que assombro levou o senador a acreditar que um projeto institucional à educação poderia estar algum dia pronto, absolutamente planejado? Ora, projeto é outro signo para natimorto, natimorto é já o projeto; e o ainda contemporâneo adjetivo “institucional” é, injustamente, o que neutraliza o verbo, é o que suga o potencial corrosivo do educar. A ferramenta institucional do projeto, a própria ideia vestibular, é ruim. É falsa, não-verdadeira. A lógica vestibular, a infantilidade escolarizada, no entanto, é erigida como substrato democrático – e é, pois, ruim também para os crentes nas instituições democráticas que esse projeto não se tenha concretizado; apesar disso é melhor dizer, afinal de contas, que o Estado é o responsável pela educação do que exercê-la responsavelmente. E por isso a conseqüência, lógica e intestinal, é que o estudo só deve sê-lo enquanto instrumento para algo e não o algo mesmo a criticar os instrumentos: perde-se tempo com o estudo, pois a reflexão mesma é tempo perdido. Mas não parece, caro leitor, que uma seiva está sendo espremida dos músculos frescos? Não parece escorrer um líquido amargo, amarelo e esverdeado, que fatidicamente auxilia e exprime a produção? Então as vozes do conservadorismo ecoam a favor e contra o Estado, para que o estado das coisas possa manter-se plasmado, plastificado, planificado, diante do que urge, o pensamento. Mas, como afirma Benjamin, esse assombro “não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável”. Lembrei daquela imagem do papel mata-moscas proporcionada por R. Musil: a instituição suga a vida do que lhe resiste, e o seu por que, o por que institucional, é uma espécie de substância gelatinosa, amarela e tóxica, cuja função procede à sucção – de vida, de tempo; é a razão mesma da totalidade e a sua não-verdade, a não-verdade do conservadorismo, a sua forma mentis – do que o papel mata-moscas é também expressão.
é.
ResponderExcluiré triste.
é trágico.
é nojento.
mas é (sempre) bom te (re)ler de novo.
Lindo texto.
ResponderExcluirAs palavras cuidadosamente escolhidas contam do teu compromisso com uma postura em busca constante pela reflexão acerca da educação. A ideia do educar conservador é dramática, é pérfida com o que nos é dado a perceber.
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