quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Espiando os Cantos Escuros com os Cantos dos Olhos: Poesia de Carlos Drummond de Andrade...

O medo
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A Antonio Candido
"Porque há para todos nós um problema sério...
Este problema é o do medo."
(Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração)

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Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
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E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios vadeamos.
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Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.
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Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.
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Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
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Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.
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Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
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Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
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do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
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Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
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E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
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O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
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Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
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Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
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eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.
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Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Olhos e Olhares, Forças e Fraquezas: ou, a auto-crítica de Semáforo...

"Quantos olhares há sobre uma pessoa? Cada pessoa tem o seu olhar, sempre vesgo, e constrói a sua realidade a partir do que consegue enxergar dela, sempre cego... Essas diferenças de olhar não podem esquivar-se da relativização, mas também não o podem da realidade máxima, que é a presença do outro olhar." Foi assim que Semáforo iniciou sua escrita. Queria fazer poesia. Acabou escrevendo. Algo. Sensível ao que de realidade poderia perceber no mínimo contato com o que não era ele, só pôde dar-se conta, como ocorre com aqueles restos indizíveis que as palavras nunca alcançam, que sua melhor amiga, a Metáfora, não enxergava as coisas da mesma forma. Claro, ele não poderia ver, tatear, farejar, de maneira diferente, nesse momento; só lhe restava deixar a si mesmo dar-se conta. Perguntava-se: "aliás, o que sobra para além daquilo que eu mesmo consigo construir em relação à esta diferença?" A questão permaneceu... tocada e retocada, dita e redita, não-dita e desdita. Primeiramente, e por muito tempo foi assim, pensou que essa diferença fosse por causa da cor dos olhos - Metáfora os possuía azuis, Semáforo, pretos.
Lembrou que quando era criança imaginava-se, ainda, como seus parentes o faziam crer que ele mesmo era. Parou. "Como pode?", perguntou-se. "Eu mesmo não sei o que sou na diversidade e multiplicidade daquilo que posso ser... Quem é que pode saber quem eu sou verdadeiramente na minha essência?" A cor dos olhos deve indicar alguma coisa. Inclusive, talvez, pode indicar tudo, menos valores. Diante do choque, este narrador, onipresente, violento e, como não poderia deixar de ser, vesgo, elaborava: qual dos contrários será que Semáforo encenava no momento mesmo em que escrevia?
A reflexão lhe deu a chance, e inclusive ao narrador, de simplesmente, pensar que "na real" um jogador de futebol qualquer pode estar jogando por salário apenas, mas pode, por outro lado, estar correndo para o torcedor, para a sua própria gana e não grana; que realmente ele pode estar ali com toda a sua sensibilidade, tal como Semáforo o desejaria. Abismado, ele cogitou, então, que de alguma maneira, seus colegas dos tempos do colégio pensavam algo sobre ele que não dizia respeito ao quê ele era, mesmo que naqueles tempos ele próprio acreditasse que representava o que exigiam dele que representasse. É incisivamente paradoxal. Já não sabia se teria sido aquilo ou se não poderia deixar de ser daquele jeito, naquele tempo. Baseara todo seu comportamento, suas conversas, suas percepções de realidade, na imagem que fazia da imagem que os outros faziam dele. O próprio fato de acreditar, agora, em percepções já indicava uma crítica. Semáforo angustiava-se ao lembrar. Sua auto-crítica era dolorida demais. O recheio dos instantes vividos era preenchido com mel, mesmo que preferisse abacaxi. Espanto, porém! A vergonha por desnudar a sua violência, era, paradoxalmente, jogada para fora com um sorriso. Refletia, gritava e sorria. A Metáfora, contudo, só enxergava o sorriso, visto que pasmado, Semáforo gritava mudo. Poderia sorrir, pois justamente era a sua sensibilidade que possibilitava jogá-lo no tempo e encontrar, também, alguma inexplicável constância, naqueles momentos de crise. Deu-se conta: a chance de sorrir era a chance de encontrar. A sua posição crítica, subversiva, mal-entendida, estava a lhe dizer, por sussurros, que ele realmente poderia ser assim; poderia, sim, aceitar a cultura não obstante seus influxos contra-culturais; poderia aceitar-se, concomitantemente, crítico e filho.
Como se fosse o reverso do estar de ponta cabeça, mas que não é apenas estar de pé, pois não há como ficar incólume ao fato de que há instantes o sangue subira bruscamente às têmporas, Semáforo sentiu que as críticas que freqüêntemente dirigia aos outros da sua racionalidade, não poderiam sobreviver, senão pelo fundamento das quais emergiam. Fundamento que também é seu próprio limite. O também sempre é, e o sempre também é, sempre também, pensou. Coincidência dos opostos, lógica da conjunção, crenças, olhos, azuis e pretos...
Talvez Semáforo quisesse mesmo ser artista como sua mãe queria lhe pintar... Mas isso é uma crença, apenas, do narrador.

sábado, 2 de agosto de 2008

Intocável Distância Sensível...

Entretanto, a delicadeza do partir emerge como um rabisco, cuja alegria indica, na imaginação infantil, o oposto daquilo que árvores, montanhas e pássaros podem significar para a leitura materna. Assim o tempo do choro, a distância alucinada, o amor eternizado...
ACP